Seis propostas para a poesia – por Joca Reiners Terron

por Michel Laub

(Autor de Animal anônimo e Do fundo do poço se vê a lua):

1. A poesia só nasce quando estamos sozinhos, penabundeados ou solitários por escolha. Para bebês-poemas virem à luz, é necessário ser 1) jovem. Ou então ser 2) velho, porém manter o espírito jovem, ou livre, o que no fundo é a mesma coisa. Contudo, atenção: existe um tipo de amizade nesse período inicial da vida, baseada na descoberta do outro, e tal encontro (tão raro) costuma ser frutífero para a poesia. Dele nascem escolas poéticas, guerras entre escolas poéticas, poeticídios de todo gênero, a origem e o fim do mundo.

2. A poesia não deve ser publicada online em nenhuma hipótese, pois isto impediria que leitores-poetas transformem os livros de poemas que amam numa parte essencial de si mesmos, com a qual dormem, perambulam com eles nos bolsos das calças pelos locais mais inóspitos, e que lancem neles seus fluidos corporais.

3. O poeta não deve nunca presentear seus livros, e sim destruí-los por conta própria. Foi Monterroso quem falou isso (ou mais ou menos isso), mas não custa repetir. Os livros que contêm a única poesia que verdadeiramente amamos são encontrados somente a duras penas, em sebos obscuros de cidades distantes visitadas num verão fracassado, ou então foram roubados das bibliotecas de amigos.

4. A poesia que não traz intensa carga subjetiva não interessa a ninguém. Isso indica que, para que sua poesia seja digna de algum interesse, você precisa viver, e mais do que isto, viver interessantissimamente. O resto (a observação de vísceras sob a lâmina fria de um laboratório asséptico) não é poesia, mas outra engenhoca qualquer que não fede nem cheira, feita só para impressionar. E poesia tem de feder.

5. Aceite entrar num clube apenas para ter o prazer de sair um segundo depois de entrar. Se a dissidência acontecer com alguma pancadaria, melhor ainda, pois poemas são meio vampiros e gostam de sangue.

6. Nunca cague regras. E sempre se contradiga.

Anúncios