Seis propostas para a crítica – por Antônio Xerxenesky

por Michel Laub

(Mestrando em literatura comparada na UFRGS e autor do recém-lançado A página assombrada por fantasmas):

1. Menos atenção ao marketing. Sim, os novos escritores estão preocupados em vender seu peixe. Sim, eles usam redes sociais a seu favor. Sim, eles frequentam os mesmos bares e conversam entre si. Não, isso não é relevante na hora da crítica. A crítica deve analisar a obra, não as opiniões e performances da vida virtual e real do autor.

2. Uma crítica mais interpretativa. As resenhas de jornais, em seu espaço reduzido, muitas vezes se assemelham a um guia de compras, com direito a avaliações de “bom” ou “ruim”. Seria legal ver, para além da opinião discutindo se o romance X merece seu tempo e dinheiro, uma crítica que oferecesse interpretações do crítico para a obra, buscando “validades, não verdades”, como postulou Barthes.

3. Há um ser humano por trás do escritor. Claro, é dever do crítico atacar o que acha que deve ser atacado. Ele não pode esquecer, todavia, que há uma pessoa de carne e osso, como ele, por trás da obra. Um mínimo de tato não faz mal a ninguém. E um anexo: evite detonar livros de estreia – a crítica pode ser tão traumática para o escritor que ele nunca mais se arriscará a escrever uma só linha. Tratando-se de um segundo livro, porém, a sinceridade brutal está liberada.

4. Acadêmicos: não esqueçam o contemporâneo; escritores: não esqueçam a teoria. Nada tenho contra a crítica praticada por professores de Letras ou a feita por escritores, mas o ideal seria que todos tivessem conhecimento para além de sua área mais imediata. Ou seja: acadêmicos devoradores de literatura contemporânea (estrangeira e nacional) e escritores familiarizados com teoria literária e o (sempre questionado) cânone.

5. Por favor, faça-me rir. Muita gente discordou da polêmica resenha de Maurício Raposo na última Copa de Literatura Brasileira, mas quase todo mundo gargalhou com ela. Muitos comentaram: por que não vemos esse tipo de coisa no jornal impresso? Não seria ótimo encontrar um texto (arriscadamente) cômico como esse nos jornais?

6. Amigos até certo ponto. Evite resenhar livro de amigo. Se for inevitável, lembre-se que o melhor amigo é o sincero, capaz de dizer ao outro que ele está se comportando feito um idiota. Da mesma forma, evite muito resenhar livro de algum desafeto. A crítica não é o espaço para resolver desentendimentos pessoais. Este lugar se chama “bar”.