‘Curto alcance’, de Annie Proulx

por Michel Laub

(Publicado na Folha de S.Paulo, 2007):

Vencedora dos prêmios Pulitzer e National Book Award, mas ainda pouco conhecida no Brasil, Annie Proulx não deixa de ser uma novidade no panorama da prosa norte-americana. O leitor que teve contato com seu universo por meio do filme Brokeback Mountain, adaptação melancólica e algo romântica de Ang Lee para um dos contos presentes no agora lançado Curto Alcance (Intrínseca, 337 págs., tradução de Adalgisa Campos da Silva), talvez fique surpreso pela secura, a ironia e o grau de violência destas histórias.

Nelas, a autora põe em cena a vida de Wyoming, a “terra dos cowboys”, um estado cuja vida se divide entre as paisagens deslumbrantes, que remetem ao imaginário típico do western, e a vida em pequenas cidades onde circulam vaqueiros, motoristas de caminhão e pequenos comerciantes que vivem do turismo. Por toda parte, o lema não escrito é “você que cuide da porra da sua vida”. As famílias se desintegram, os velhos acabam seus dias sozinhos, as mulheres enlouquecem isoladas em fazendas, mas quem tem braços para trabalhar precisa ir adiante enfrentando invernos terríveis, quedas dos preços agrícolas, desemprego.

O tom típico dos relatos é o de um aparente distanciamento, cujo impacto vem da exatidão das descrições e da originalidade das metáforas: um cadáver é uma “lata de carne seca”, a respiração do gado no frio são “balões de diálogo de histórias em quadrinhos”, alguém parece “um advogado especializado em direitos sobre a água”, e a discreta poesia dessas passagens é sempre intercalada com a brutalidade – o filho que dá uma surra no pai, a mãe que joga o bebê no rio, o peão morto com uma chave de roda.

Não se engana quem vê na mistura a sombra de William Faulkner. Há ressonâncias e possíveis homenagens ao autor de O som e a fúria, como na história do deficiente mental castrado por “se exibir” para mulheres da vizinhança (Quem vive no inferno se satisfaz com um gole d’água). Porque tanto para Faulkner, que retratou um sul assombrado pela herança do escravismo, quanto para Proulx, cujo horror poderia ter como única origem a pobreza e o atraso, a violência tem um caráter mítico, muito mais arquetípico do que histórico.

Faulkner tratou do tema principalmente por meio da subjetividade dos narradores em primeira pessoa, cuja convicção, diz Vargas Llosa, potencializa ainda mais a insensatez descrita. Seus personagens se caracterizam por uma inadequação fundamental, nascida de um trauma ou de um desejo íntimo, e suas trajetórias são marcadas pelo combate inglório contra o próprio destino. Já Proulx prefere um outro registro, geralmente em terceira pessoa, uma visão panorâmica que dá importância maior ao cenário do que à psicologia. “Nenhuma carnificina ou crueldade passada”, ela escreve, “nenhum acidente ou assassinato ocorrido nas fazendolas ou nas encruzilhadas ermas com suas minguadas populações de três ou dezessete habitantes, ou nos inseguros parques para reboques de cidades mineiras, retarda a inundação da luz matinal”

Sob o peso dessa indiferença, as criaturas do livro assumem um caráter trágico ainda mais acentuado. Alguns, como o astro de rodeios Diamont Felts, do excelente Num Lamaçal, aceita pagar no futuro o preço amargo por suas escolhas do presente. Outros, como o Leeland Lee de A história de Jó, conto de título sintomático, quase chegam a encarnar uma santidade em meio a uma vida cheia de revezes. Para todos eles, é como se o cotidiano de rodeios, cercas partidas, caminhonetes abarrotadas de ferramentas e pumas que devoram bezerros fosse mera distração antes do fim inevitável, que qualquer criança em Wyoming conhece.

Não por acaso, é assim que termina Brokeback Mountain: “Havia um espaço aberto entre aquilo que ele sabia e aquilo em que tentava acreditar, mas nada se podia fazer a respeito”. Na resignação, que mais cedo ou mais tarde sublinha todas as cenas de Curto Alcance, está a única arma individual contra um mundo feito de hostilidade. Esteja ela nas campinas, nos barrancos, nas montanhas ou dentro de cada um.

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