James Wood e a frase perfeita

por Michel Laub

(Publicado no blog da Companhia das Letras):

O que é escrever bem? Em Como funciona a ficção (Cosac Naify, 228 páginas, tradução de Denise Bottmann), James Wood lembra algo óbvio e ao mesmo tempo complexo: uma frase perfeita não pode admitir um número infinito de variações. “Não se pode aumentá-la [ou diminui-la] sem sofrer algum prejuízo estético (…). Sua perfeição é a solução de seu próprio quebra-cabeça”.

Tudo explicado, e ao mesmo tempo nada. O elogio aos autores escolhidos para ilustrar a tese — Marilynne Robinson, Cormac McCarthy e Saul Bellow, entre outros — é justo? O próprio Wood adverte já no início do capítulo sobre o tema: “Quase toda prosa aclamada como bela (…) não é nada disso.” E boa parte do cânone das oficinas literárias hoje, que de algum modo ainda reza pelo credo de Flaubert, facilmente desaguando no fetiche do objetivismo e da concisão, poderia ser confrontado com uma frase de outro mestre, Henry James: “Adjetivos e advérbios são o sal e o açúcar da literatura”.

Se é complicado definir o que é bom ou ruim num texto, e é ótimo que assim seja, resta ao leitor/crítico se esforçar para convencer os outros da objetividade do próprio gosto. Um pouco na linha da última coluna, feliz (ou infeliz) do escritor que conta com um advogado (ou promotor) capaz de enaltecer (ou atacar) seus atributos com afinco e qualidade, que também é qualidade de prosa. Claro que vamos olhar de outra forma para D.H. Lawrence ao ler o que Wood escreve sobre uma frase de seu romance Mar e Sardenha: “As duas [palavras] gostam uma da companhia da outra, e little short legs é mais original do que short little legs porque pula mais, é mais absurda, força-nos a tropeçar de leve — tropeçar com perninhas curtas — no ritmo inesperado.” Ou sobre uma descrição de Virginia Woolf em As ondas: “O segredo reside na decisão de evitar a imagem usual dos trigais ondulantes e de optar por ‘o dia ondula’: o efeito, de súbito, é que o próprio dia, a própria textura e temporalidade do dia parecem impregnados de amarelo”.

Ficção de qualidade, eu arriscaria se precisasse definir, é um misto de aparato formal/sintático, ilusão de “vida” capturada na página — que pode estar num registro realista, fantasioso, metalinguístico, não importa — e ideias. O nível mais básico da prosa — por que usar uma palavra e não outra — tem consequências nas três esferas: essa palavra precisa ao mesmo tempo ser elegante, o que não é a mesma coisa que “bela”, estar adequada ao tipo de narrador e tom do texto e, por fim, dizer a “verdade”. Uma vez escrevi um ensaio sobre os diálogos de Quentin Tarantino, e uma das frases citadas — “raramente visão e tato concordam sobre o que é bom”, de Pulp fiction — é tão ou mais perfeita (o que se poderia acrescentar ou tirar de seu insight?) que qualquer uma das escolhidas por Wood. Ou seja, a sabedoria sempre será uma forma de beleza. E uma forma constante porque, ao contrário do artifício estético, não varia com a moda e depende menos de justificativas externas.

Parece teórico demais, mas o interessante da literatura é que percebemos isso de forma imediata ao nos depararmos com a tal construção perfeita. Duvido que a maioria dos leitores deste texto, assim como acontece comigo, precise de uma linha além da transcrição que Wood faz de algumas metáforas para enxergar nelas elegância, adequação e verdade: um ninho descrito por Tchekhov como “uma luva que alguém esqueceu numa árvore”, ou os olhos de uma criada de Henry Green como “ameixas mergulhadas em água gelada”, ou o leite transbordando numa carroça que Thomas Hardy diz estar “cacarejando nos baldes”. Tal aprovação tem a ver com nossa história pessoal, com nosso ouvido, com nossa maneira de falar, com nosso humor, gênero, libido, cultura e ética, enfim, com os elementos que nos fazem ser quem somos, mas há um mínimo denominador social — uma convenção estética da nossa época que se entranha na maneira como pensamos e reagimos à linguagem — que, por ser na prática uma segunda natureza, confunde-se com a intuição que experimentamos ao ler um trecho qualquer.

Em resumo, é subjetivo e não é. Dá para explicar e não dá. Mas pensar e discorrer a respeito, tentando entender o funcionamento dessa intuição, e domar portanto os elementos que a compõem, é um exercício sempre estimulante e divertido. Considerando que todo escritor é antes de mais nada um leitor, no sentido de que só vai para a sua página aquilo que ele aprovaria numa página alheia, a dica vale para ambos os lados do balcão.