‘No more shall we part’, de Nick Cave, lançado há dez anos e comentado faixa a faixa

por Michel Laub

As I sat sadly by her side – Abertura como uma espécie de resumo, com os acordes básicos de quase todos os arranjos posteriores – lá menor, fá, sol –, a voz eventualmente gemida em excesso e o tema: “Deus não se importa com a sua benevolência/ Mais do que com a falta dela nos outros/ Nem se importa de você olhar/ pelo vidro e julgar o mundo que Ele criou.”

And no more shall we part – Machadinhas enterradas, pássaros que cantam nas profundezas do inverno e o universo gótico/romântico por excelência de Nick Cave, aqui em forma melancólica na balada que começa em 2’30.

Hallelujah – Um violino solitário, como um alerta na escuridão, que quase oito minutos depois, por causa da folga indevidamente concedida a uma enfermeira, deságua num coro sobre vinte baldes de lágrimas a serem enterrados por vinte garotas em vinte covas fundas.

Love letter – Um envelope branco e frio e as palavras erradas de um homem que, sob ventos cruéis e céus carregados, em duas notas simples de piano, na mais direta e comovente das mensagens, sussurra ao vento uma reza de duzentas palavras para alguém que se foi.

Fifteen feet of pure white snow – Mona, Mary, Michael, Mark, Matthew, ficaram todos para trás na tempestade. O vizinho é o inimigo. O doutor não ouve. A enfermeira sumiu de novo, e este é o pior dia que uma pessoa já viveu. O piano das partes calmas remete à solaridade de As I sat sadly…, mas é bom não ir muito nessa.

God is in the house – Entre a descrição de uma cidade sem sofrimento, onde há uma mulher para cada homem e os gatos “são pintados de branco para serem vistos à noite”, e gemidos que dizem o contrário, culminando numa longa e virtuosa capela sussurrada sobre gente que se ajoelha à noite e “muito quietamente grita aleluia”.

Oh my lord – Um homem pensa em dar uma caminhada pela manhã, mas ao beijar a esposa vê a Espada de Dâmocles sobre ela. Uma premonição, uma intuição, o destino que aponta sua lança e faz preces serem respondidas em lágrimas. O mais forte dos temas de No more shall we part – alguém à beira da loucura apelando a deus – é magnificado pelas guitarras, cordas e bateria, em seu crescente monocórdio e irresistível de entropia, dor, medo, desespero, catástrofe e destruição.

Sweetheart come – Interregno num tom um pouco menor e um tanto repetitivo no desfecho. Sobre cães, leões e o fardo de alguém que foi tocado por “mãos estúpidas”, mas agora parece que vai ficar tudo bem.

Sorrowful wife – Também um crescendo que vai da capela pontuada pelo piano, trilha de um casamento celebrado no dia do eclipse, e que se estende em silêncio pelas noites e estações de uma casa perdida entre teixos e jacintos dobrados na intempérie, aos gritos pedindo ajuda de quem não consegue mais ouvir os próprios pensamentos.

We came along this road – Beleza melódica em estado bruto, com violinos reiterativos do piano na última parte, que ganha em singeleza ouvida na sequência do caos de Sorrowful wife. Sobre um homem que deixa a mulher e o amante mortos e – decisão que é sempre um problema neste disco – pega novamente a estrada.

Gates to the garden – Uma estranha paz numa canção de retorno, o encontro de pais fugitivos, filhos adoentados e suas mães, caixas sortidas de planos abortados por caminhos de má sorte rumo aos portões do jardim final.

Darker with the day – Como um réquiem em vocal acelerado, que se alterna com um mantra feminino e dolorido, deste conjunto lírico, trágico, irônico e magnífico de canções: a caminhada, a igreja, os vizinhos, as nuvens, as flores e os Césares e Napoleões que aos poucos somem na noite do tempo e da ausência.

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