Chateaubriand e o pé do papa

por Michel Laub

Fernando Morais em Chatô, o rei do Brasil (Companhia das Letras, 736 págs.):

“Para Chateaubriand, o jornalismo que se fazia no Brasil era o pior exemplo daquilo que era condenado na Inglaterra:

‘Os jornais dão a impressão de folhas de couve escritas para verdureiros, estivadores, copeiros e malandros de morros. Perdemos um jogo de futebol na Europa. Coisa comezinha, ordinária entre homens de esporte. Aqui se imprimiram frases torpes, difamações abomináveis contra juízes, como se as associações internacionais de esportes (…) fossem constituídas de zelosos cidadãos do grupo equestre de Lampião.’

Sua insuperável idiossincrasia, porém, era contra o ponto de exclamação:

‘O ponto de exclamação se tornou, nos vespertinos e matutinos sensacionalistas cariocas, o ponto final obrigatório de qualquer manchete. Se um repórter quer dizer que chegou ao porto o Astúrias, ele escreve em manchete de oito colunas: ‘Chegou o Astúrias!’ Desce o presidente de Petrópolis a fim de presidir uma reunião do ministério. Fato ordinário da atividade administrativa do país. Logo os vespertinos anunciam: ‘No Rio o sr. Getúlio Vargas!’

O enorme e frágil telhado de vidro que os vespertinos Associados exibiam (…), no entanto, tirava autoridade de Chateaubriand para ditar regras de ética jornalística (…). Campeão das manchetes escandalosas que o patrão detestava, o Diário da Noite carioca superaria a si próprio quando se anunciou que o papa Pio XI estava acometido de gangrena em um dos pés, moléstia que acabaria por mata-lo meses depois. Carlos Eiras, o secretário do jornal, célebre pela capacidade de resumir uma notícia em um número cada vez menor de palavras, não teve dúvidas em lascar na primeira página (…), em oito colunas e letras garrafais (…), aquele que durante muitos anos seria considerado (…) um modelo de síntese e sensacionalismo: ‘PODRE O PÉ DO PAPA!’”

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