O que um homem pensa ao ver uma mulher de topless

por Michel Laub

Martin Amis em A viúva Grávida (Companhia das Letras, 525 págs., tradução de Rubens Figueiredo):

“Scheherazade veio se decantando através dos três níveis do declive em patamares e agora se deslocava através de um conjunto formado por um caramanchão e uma estufa de plantas, enquanto se aproximava da água, descalça, mas em trajes de jogar tênis – saiote xadrez verde-claro e uma camiseta amarela. Com um rodopio, desfez-se da parte inferior da roupa (ele pensou numa maçã sendo descascada) e escapuliu de dentro da parte superior; e depois dobrou os cotovelos dos braços compridos para trás, como se fossem asas, e desafivelou a parte superior do biquíni (e lá se foi aquela parte – com um simples meneio do corpo, ela se foi), dizendo:

‘Outra coisa chata, isto aqui.’

Claro, aquilo também não era chato. Por outro lado, seria deploravelmente imaturo e burguês (e caído) dar o menor sinal de estar prestando atenção ao que agora estava exposto; portanto Keith tinha a difícil tarefa de olhar para Lily (de roupão folgado, sandálias de dedo e ainda na sombra), enquanto simultaneamente comungava com uma imagem que estava destinada, a partir de agora, a permanecer no mais solitário ermo de sua visão periférica. Depois de trinta segundos, mais ou menos, para sossegar os nervos em seu pescoço meio tolhido, Keith olhava para o alto e para longe – para as encostas douradas do maciço, que ecoavam o azul-claro. Lily bocejou e disse:

‘E qual é a outra coisa chata?’

‘Bem, eu acabo de ser informada…’

‘Não, eu quero saber qual é a outra coisa chata.”

Lily estava olhando para Scheherazade. Então Keith fez isso também… E esta foi a ideia, esta foi a pergunta que eles despertaram em Keith, eles, os peitos de Scheherazade (as circunferências geminadas, adjacentes, permutáveis): Onde está a polícia? Onde é que estava a polícia? Era uma pergunta que ele se fazia muitas vezes naqueles tempos incertos. Onde é que eles estavam, a polícia?”

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