Enrique Vila-Matas

por Michel Laub

Trechos de entrevista que fiz para a revista Bravo, 2005, com o autor de Bartleby e companhia e O mal de montano:

Obra – Meus textos são híbridos. Não os vejo exatamente como livros independentes um do outro, até me custa pensá-los como livros. São mais como peças de um tapete ou puzzle que vou armando pouco a pouco. Peças diferentes, me obrigo a isso, mas que vão dar em um oceano de um mesmo desenho.

Influências As equivocadas. Gombrowicz, por exemplo. Eu acreditava que era um escritor excêntrico como ele, mas nem sequer o havia lido. Assim comecei a escrever: acreditando que estava influenciado por esse autor polonês. No dia em que, por fim, li algumas linhas suas, já havia publicado quatro livros e tinha um estilo próprio que em nada se parecia com o de Gombrowicz.

Conceito de literatura nacional – Não acredito, vejo como algo provinciano e do século 19. Acredito nas individualidades.

Autores preferidos – Dentre os narradores singulares e vivos, destacaria John Banville, Sergio Pitol, Philip Roth, Don DeLillo, Jean Echenoz, Daniele Del Giudice, Antonio Tabucchi, António Lobo Antunes, Julian Barnes, Coetzee, Paul Auster…

Otimismo/pessimismo – Me fascinam Beckett e seu tremendo pessimismo. Toda a sua obra, diz Martin Amis, poderia ser resumida assim: “Não, nunca, nunca”. Mas há uma literatura muito diferente que, acredito, me apaixona ainda mais (…). Às vezes há grandeza no simples fato de sentar com uma mulher durante o verão. E é esse o ponto que eu discutiria com Beckett, já que sua desolação é, algumas vezes, demasiado cômoda: tudo é terrível, tudo vai de mal a pior, e não é verdade.

Política – Não se deve proibir ninguém de fazer, mas, na minha opinião, a literatura é autônoma.

Espaço da ficção hoje – Algo parecido com o pequeno espaço que há anos a poesia vem ocupando em relação à narrativa em geral. Um espaço seleto.

Poesia – Sou um leitor apaixonado de poesia. Ela me tranquiliza, porque aí não tenho competidores nem colegas. Mas de vez em quando, em meus últimos livros, encontro algum espaço para praticar certa prosa poética. Para escrevê-la, necessito de que haja música em casa. Van Morrison, Chico Buarque, The Pretenders, Mozart, Satie.

Pecados da literatura Só me preocupam os meus, e não penso em dizê-los aqui. Calo enquanto acendo um cigarro imaginário, já que não fumo.

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