Os clichês do escritor e os clichês da crítica

por Michel Laub

(Publicado no blog da Companhia das Letras):

Não gosto de clichês, como imagino que ninguém goste, mas não acho que eles sejam um pecado irredimível na literatura. Além de ter como base uma sabedoria cristalizada, cujo peso moral pode compensar a fraqueza estética, é sempre possível usá-los de maneira renovada — como paródia, ironia, homenagem ou procedimento do gênero. Um contista como Dalton Trevisan, que muitas vezes extrai sua força da torção ou inversão de frases gastas e literatices, está aí para comprovar.

Se o clichê aproveita uma forma banal para transmitir ideias que podem ser complexas, o jargão faz o contrário: ele esconde a obviedade num invólucro que se anuncia como raro, cujo entendimento é restrito a um grupo — médicos, advogados, acadêmicos, executivos de corporação — e funciona como código de poder. Mesmo assim, e um autor como David Foster Wallace é a prova agora, essa espécie de corrupção da linguagem pode ser o grande achado de uma história, dando a um narrador uma especificidade que abrange tanto categorias externas — sociologia, psicologia — quanto atributos narrativos — verossimilhança, ritmo, humor.

O uso do clichê e do jargão é apenas um exemplo da subjetividade intrínseca a qualquer julgamento literário. Por isso soam ingênuas as interdições peremptórias a esse tipo de recurso e, numa esfera mais ampla, a uma série de assuntos e técnicas ficcionais. Protagonistas escritores, favela como cenário, personagens de meia idade em crise pessoal, prosa concisa ou caudalosa, livro dentro do livro, histórias que dizem mais do que mostram, cenas com bebida e sexo, não há um único desses e de tantos outros itens que já não tenha sido identificado, num tom de quem está acima de qualquer vaidade ou interesse pessoal, evidentemente, com a suposta falta de vigor da atual literatura. O que sempre me ocorre ao ler um veredicto desses é: ok, mas o resultado de tais premissas e escolhas é bom ou ruim, funciona ou não dentro do que se propõe — nas regras que o autor determina, e não o crítico —, e por quê?

Numa entrevista para a extinta revista Entre Livros, perguntei a Bernardo Carvalho se ele identificava algum defeito em seus romances, coisas das quais conscientemente tentava fugir. “Só percebi que podia escrever pra valer”, foi a resposta, “no dia em que entendi que os meus defeitos (o que seria defeito, segundo uma norma geral) eram, no fundo, as minhas qualidades. Os seus limites são o seu estilo. Escrever não é se livrar dos seus defeitos; é vê-los com outros olhos.”

Todo escritor sabe quando encontra uma voz, se um dia tiver a sorte de encontrá-la, e uma das etapas obrigatórias no processo é perceber como é inevitável se chocar com algum aspecto dessa “norma geral”. É claro: se não fosse assim, ele seria apenas mais um a reproduzir o que um mundo tão cheio de autores, livros, narrativas e ideias vive reverberando. Guardadas as proporções devidas, o insight de Bernardo é semelhante ao que, dá para especular, fez Dostoiévski se apegar à sua escrita suja, Henry James insistir nos seus advérbios, Faulkner dar uma banana para qualquer preocupação com a clareza de suas histórias, Thomas Bernhard passar a ver uma estranha originalidade em suas repetições.

Existem os best-sellers de público, com fórmula reconhecível por qualquer leitor com experiência, e os best-sellers de crítica, que se escondem — às vezes por décadas e séculos — entre a chamada “literatura de qualidade”. Por razões que valeriam um texto à parte, no entanto, é sempre possível encontrar em algum ponto deles a prova de que o escritor capitulou — em termos ideológicos, morais e técnicos, por falta de talento, esforço ou coragem — ao o pior dos clichês, que é o do imaginário comum de uma época. Ou seja, aquilo que os outros, incluindo a crítica, esperam que digamos. Quando tudo o que deveríamos perseguir é aquilo que, usando meios que podem parecer os menos literários possíveis, queremos e precisamos dizer.

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