No que se pensa durante a lua de mel

por Michel Laub

Javier Marías em Coração tão branco (Companhia de Bolso, 272 págs., tradução de Eduardo Brandão):

“Já na viagem de núpcias era como se houvesse sido perdido e não existisse o futuro abstrato, que é o que importa, porque o presente não o pode tingir nem assimilar. Essa mudança, pois, obriga a que nada continue a ser como até então, e mais ainda se, como costuma acontecer, a mudança foi precedida e anunciada por um esforço comum, cuja principal manifestação visível é a artificiosa preparação de uma casa comum, uma casa que não existia nem para um nem para outro, mas que deve ser inaugurada pelos dois, artificiosamente. Nesse mesmo costume ou na prática, muito difundida pelo que sei, está a prova de que na realidade, ao contrair, os dois contraentes estão se exigindo uma mútua abolição ou aniquilamento, a abolição daquele que cada um era e pelo qual cada um se apaixonou ou de quem talvez tenha visto as vantagens, já que nem sempre há um apaixonamento prévio, às vezes é posterior e às vezes não ocorre nem depois nem antes. Não pode ocorrer. O aniquilamento de cada um, daquele que se conheceu, se freqüentou e que se quis, traz consigo o desaparecimento das respectivas casas, ou nela fica simbolizado. De tal maneira que duas pessoas que tinham o costume de ser cada uma por sua conta e estar num lugar cada uma, acordar só e frequentamente também se deitar só, se encontram de repente artificialmente unidas em seu sono e em seu despertar, em seus passos pelas ruas semivazias em direção única ou subindo juntos pelo elevador, não mais um de visita e o outro como anfitrião, não mais um indo buscar o outro ou este descendo para ir encontrar-se com aquele que espera no carro ou a bordo de um táxi, mas ambos sem escolha, com aposentos, elevador e portão que não pertenciam a ninguém e agora são dos dois, com um travesseiro comum pelo qual se verão obrigados a brigar em sonhos e a partir do qual, como o doente, também acabarão vendo o mundo.”

Anúncios