A vida própria dos livros

por Michel Laub

(Publicado no blog da Companhia das Letras):

Há muitas maneiras de responder à pergunta eterna sobre por que se escreve. Uma das mais curiosas defende que é para trazer ao mundo os livros que estão faltando ou, numa interpretação menos pretensiosa, aqueles que o próprio escritor gostaria de ler. É interessante imaginar que Melville nunca tenha encontrado um romance decente sobre baleias, ou que Tolstói cansou de esperar por uma história verdadeiramente grandiosa sobre a Rússia na época de Napoleão, e que isso os motivou a suprir as lacunas com Moby Dick Guerra e paz.

Embora curiosa, a resposta — como quase todas do gênero — é provavelmente falsa. Antes de mais nada, por uma obviedade: o escritor nunca lerá a si mesmo de forma inocente. Parte do interesse, do encanto e do prazer de um livro está em descobrir o que acontece ao longo das páginas, as viradas de trama, a sorte dos personagens, os sentimentos e mundos que se revelam. A leitura ideal é aquela em que saímos diferentes de como entramos, e essa é uma experiência inacessível a quem produziu o texto.

Só que as coisas são um pouco mais complexas. Não dá para desprezar, também, um fato igualmente óbvio: em literatura, há uma distância enorme entre intenção e resultado. Por mais que saibamos o que pretendemos comunicar num capítulo, num parágrafo ou numa frase, é só depois que esse capítulo, parágrafo ou frase está na tela ou no papel que podemos ter noção do seu real significado e eficiência.

Em As cidades invisíveis, de Italo Calvino, romance em que Marco Polo descreve para Kublai Kahn as dezenas de lugares onde esteve, há uma passagem em que o imperador pergunta por que os dois nunca trataram de Veneza. Marco Polo responde que deseja manter ilimitada a ideia que tem de sua cidade natal, e que se falasse dela diretamente estaria “cancelando as margens da memória”. Ou seja: como ao contar um sonho, que não obedece a nenhuma regra narrativa temporal, espacial ou lógica, as lembranças e emoções que tivemos durante a noite passam a ser apenas as palavras lineares e racionais que usamos para defini-las pela manhã.

Poucas metáforas são tão precisas para ilustrar a natureza da escrita. Ela reduz o universo muitas vezes inesgotável da mente de um indivíduo, o autor, aos limites naturalmente mais estreitos de um instrumento, a linguagem. Por isso que alguém cheio de histórias para contar, ou com uma experiência afetiva rica, ou com uma forma peculiar e inusitada de ver o mundo não necessariamente será um bom escritor. O bom escritor é o que doma a linguagem para que, por meio dela, todos esses atributos apareçam de maneira interessante no papel. O que ela cria, por meio da sonoridade das frases, do ritmo, do tom, do estabelecimento de clímax e anticlímax, entre tantos outros recursos, é sempre autônomo em relação aos elementos — teses, argumentos, emoções — que a precedem.

Eu costumava rir de ficcionistas que diziam que seus personagens “ganharam vida própria”, uma frase de efeito de quem se acredita uma espécie de instrumento mediúnico da Inspiração. Na verdade, a frase é outra boa metáfora, já que parte do processo de escrever um livro pode ser como uma sucessão de testes: você faz o personagem dizer a, dizer b, ir para o lugar x, para o lugar y, e de acordo com o efeito das simulações — o que está funcionando melhor para você como leitor — o destino desse personagem — e sua personalidade, suas motivações, sua índole — acaba sendo definido.

Na prática, é como se o escritor pudesse, sim, ser surpreendido pelo próprio trabalho. O que às vezes é uma recompensa inestimável, mas nem sempre: mesmo que tenhamos passado anos vivendo, chorando e agonizando por causa de um livro, a sensação que temos ao ler suas páginas pode ser a de que outra pessoa as produziu — em geral, claro, alguém menos interessante e divertido, com menos coisas inteligentes e originais a dizer sobre as pessoas e a vida, do que achamos que somos. Ao longo do tempo, a melhor maneira de lidar com essa frustração um tanto inevitável é nos certificarmos de que, nas circunstâncias em que um texto foi escrito, o melhor possível foi feito. Nos limites do nosso talento, técnica, experiência, até capacidade física. Mesmo que só percebamos tais limites, como leitores conformados de nós mesmos, em algum dia próximo ou muito longínquo do momento em que o resultado sai da gráfica.