A diferença entre homem, salmão, mosquito, truta e jaguar

por Michel Laub

Mais trechos de A vida dos animais (ver post anterior):

“Na visão ecológica, o salmão, as algas fluviais e os insetos aquáticos interagem em uma grande dança complexa com a terra e o clima. O todo é maior que a soma de suas partes. Nessa dança, cada organismo tem um papel: são esses múltiplos papeis, mais que os seres particulares que os desempenham, que participam da dança. Quanto aos intérpretes reais, na medida em que são auto-renováveis, na medida em que continuam vindo, não precisamos prestar nenhuma atenção neles (…). É uma terrível ironia. Uma filosofia ecológica que nos diz para viver lado a lado com outras criaturas se justifica apelando para uma ideia, a ideia de uma ordem superior a qualquer criatura viva. Uma ideia, afinal – e esse é o caráter esmagador dessa ironia – que nenhuma criatura é capaz de entender, a não ser o homem. Toda criatura viva luta por sua vida própria, individual, e recusa, por meio da luta, render-se à ideia de que o salmão ou o mostuito pertencem a uma ordem de importância inferior à ideia do salmão ou à ideia do mosquito. Mas quando vemos o salmão lugando por sua vida, dizemos que ele é simplesmente programado para lutar; dizemos, como Tomás de Aquino, que ele está trancado em uma escravidão natural; dizemos que ele não tem consciência de si (…).Nós, os gerentes da ecologia (…), entendemos a dança maior, portanto podemos decidir quantas trutas podem ser pescadas ou quantos jaguares podem ser enjaulados sem afetar a estabilidade da dança. O único organismo sobre o qual não pretendemos ter esse direito de vida e morte é o homem. Por quê?”

“O programa de experimentação científica que (…) leva a concluir que os animais são imbecis (…) valoriza a capacidade de encontrar a saída em um labirinto estéril, ignorando o fato de que, se o pesquisador que desenhou o labirinto fosse lançado de para-quedas nas selvas de Borneu, ele ou ela ou morreria de fome em uma semana. Na verdade, eu diria além. Se disserem – a mim, como ser humano – que os padrões usados hoje para avaliar animais nesses experimentos são padrões humanos, eu me sentiria insultada. Os experimentos em si é que são imbecis. Os behavioristas que os inventam afirmam que só chegamos ao entendimento por meio de um processo de criação de modelos abstratos, testando em seguida esses modelos contra a realidade. Que bobagem. Nós chegamos ao entendimento imergindo a nós mesmos e à nossa inteligência na complexidade.”

“Como é que a humanidade lança, geração após geração, um quadro de pensadores (…) capazes, depois dos protocolares doze anos de escolaridade básica e seis de instrução universitária, de dar uma contribuição para a decodificação do grande livro da natureza por intermédio das disciplinas da física e da matemática? Se a essência do homem está realmente em sintonia com a essência de Deus, não é para se desconfiar que os seres humanos levem dezoito anos, uma bela e considerável parcela da vida humana, para se qualificar como decodificadores do roteiro principal de Deus, em vez de cinco minutos ou, digamos, de quinhentos anos? Talvez o fenômeno que estamos examinando aqui, mais que o desabrochar de uma faculdade que dá acesso aos segredos do universo, seja o campo de especialização de uma tradição intelectual – bastante limitada e que se auto-reproduz – cujo ponto forte é o raciocínio, da mesma maneira que o ponto forte de um jogador de xadrez é jogar xadrez, uma atividade que no seu próprio interesse tenta se instalar como centro do universo? (…) Pois vista de fora, sob o prisma de um ser alheio a ela, a razão é simplesmente uma vasta tautologia. É evidente que a razão validará a razão como princípio primeiro do universo. O que mais poderia fazer? Destronar-se? Os sistemas de raciocínio, como sistemas de totalidade, não têm esse poder. Se houvesse uma posição da qual a razão pudesse atacar e destronar a si mesma, ela já teria ocupado essa posição, de outra maneira não seria total.”