A diferença entre homem e macaco

por Michel Laub

Trecho de discurso da personagem Elizabeth Costello, militante vegetariana, em A vida dos animais, de J.M.Coetzee (Companhia das Letras, 148 págs., tradução de José Rubens Siqueira):

“Permitam que lhes relate o que alguns dos macacos de Tenerife aprendiam com seu mestre Wolfgan Köhler, particularmente Sultão, o melhor de seus alunos (…).

Sultão está sozinho em seu cercado. Está com fome: a comida, que costumava chegar com regularidade, inexplicavelmente deixou de vir. O homem que costumava alimentá-lo, e que agora parou de fazê-lo, estica um fio três metros acima do chão de seu cercado e nele pendura uma penca de bananas. Arrasta para dentro do cercado três caixotes de madeira. Depois desaparece, fechando o portão, mas permanecendo nas proximidades, pois é possível sentir seu cheiro.

Sultão sabe: agora é preciso pensar. Por isso as bananas estão ali no alto. As bananas estão ali para fazer pensar, para empurrar o sujeito até os limites do pensamento. Mas o que se deve pensar? Algo como: por que ele está me deixando passar fome? Ou: o que foi que eu fiz? Por que ele parou de gostar de mim? Ou ainda: por que ele não quer mais esses caixotes? Mas nenhum desses é o pensamento correto. Até um pensamento mais complicado – por exemplo: qual é o problema dele, que conceito errado ele faz de mim que o leva a acreditar que é mais fácil para mim chegar até uma penca de bananas pendurada num fio do que pegar as bananas do chão? –, até isso está errado. O pensamento certo é: como usar os caixotes para chegar às bananas?

Sultão arrasta os caixotes até posicioná-los sob as bananas, empilha um em cima do outro, sobe na torre que construiu e pega as bananas. Pensa: será que agora ele vai parar de me castigar?

A resposta é: não. No dia seguinte, o homem pendura outra penca de bananas no fio, mas também enche os caixotes de pedras, de forma que fiquem pesados demais para arrastar. O que se deve pensar não é: por que ele enche os caixotes de pedras? O que se tem de pensar é: como se faz para usar os caixotes para pegar as bananas, apesar de estarem cheios de pedras?

Dá para começar a entender como funciona a cabeça do homem.

Sultão remove as pedras de dentro dos caixotes, constrói uma torre com os caixotes, sobe na torre, pega as bananas.

Enquanto Sultão continuar tendo os pensamentos errados, passará fome. Até a sua fome ser tão intensa, tão avassaladora, que ele se veja forçado a ter o pensamento correto, isto é, como conseguir pegar as bananas. Assim são testadas até o limite as capacidades do chimpanzé.

O homem põe uma penca de bananas um metro para fora da malha de arame do cerrado. Joga uma vara para dentro do cerrado. O pensamento errado é: por que ele parou de pendurar as bananas no fio? O pensamento errado (o pensamento errado-correto, todavia) é: como usar os três caixotes para pegar as bananas? O pensamento correto é: como usar a vara para pegar as bananas?

A cada vez, Sultão é levado a ter o pensamento menos interessante. Da pureza da especulação – por que os homens se comportam assim? – ele é impiedosamente impelido ao raciocínio mais baixo, prático, instrumental – como usar isto para conseguir aquilo? – e assim à aceitação de si mesmo primordialmente como um organismo com um apetite a ser satisfeito. Embora toda a sua história, desde o momento em que sua mãe foi morta e ele foi capturado, passando pela viagem numa jaula até a prisão neste campo, desta ilha, e os jogos sádicos que ali se realizam com a comida, tudo o leva a questionar a justiça do universo e o lugar que nele ocupa esta colônia penal, na qual um regime psicológico cuidadosamente planejado o leva para longe da ética e da metafísica em direção ao humilde domínio da razão prática. E de alguma forma, ao palmilhar esse labirinto de constrangimento, manipulação e duplicidade, ele tem de entender que de jeito nenhum pode ousar desistir, porque em seus ombros repousa a responsabilidade de representar a essência macacal. O destino de seus irmãos e irmãs pode ser determinado pelos resultados que ele obtiver.

Wolfgan Köhler provavelmente era um bom homem. Um bom homem, mas não um poeta. Um poeta teria entendido alguma coisa ao ver os chimpanzés cativos girando em círculo no recinto, em tudo semelhantes a uma banda militar, alguns nus como no dia em que nasceram, outros cobertos por cordas ou velhas tiras de pano que acharam por ali, como se estivessem vestidos com esses trapos, outros ainda carregando pedaços de qualquer coisa.

(No exemplar do livro de Köhler que li (…) algum leitor indignado havia anotado à margem neste ponto: ‘Antropomorfismo!’. Animais não sabem marchar, ele queria dizer, não sabem se vestir, porque não conhecem o significado de marchar, não conhecem o significado de vestir-se).

Nada em suas vidas pregressas acostumou esses macacos a olhar para si mesmos de fora, como se pelos olhos de alguém que não existe. Na percepção de Köhler, as fitas e os objetos não estão ali para que obtenham um efeito visual, porque fazem-nos parecer elegantes, mas sim para que obtenham um efeito cinético, porque os fazem sentir-se diferentes – qualquer coisa para aliviar o tédio. Apesar de toda a sua simpatia e capacidade de compreensão, Köhler só consegue chegar a esse ponto – ponto do qual um poeta poderia começar, partindo de algum sentimento de compaixão pela experiência do macaco.

No seu ser mais profundo, Sultão não está interessado no problema da banana. Só a mente do experimentador, obsessivamente voltada para o problema, é que o força a se concentrar nele. A questão que realmente o ocupa, como ocupa o rato e o gato e qualquer outro animal aprisionado no inferno de um laboratório ou de um zoológico, é a seguinte: onde está a minha casa e como chego lá?”