Um mendigo cego mastigando alguma coisa no Marrocos

por Michel Laub

Elias Canneti no livro de viagem As vozes de Marrakech (Cosacnaify, 111 págs., tradução de Samuel Titan Jr.):

“Me chamou a atenção um velho de cabelos brancos, sozinho, as pernas um pouco arqueadas. Estava de cabeça baixa e mastigava alguma coisa. Também era cego e, a julgar pelos trapos que vestia, era mendigo (…). Mas o rosto era cheio e viçoso, os lábios eram saudáveis e úmidos. Mastigava devagar, de boca fechada, e seu rosto tinha uma expressão de alegria. Mastigava com zelo, como se agisse conforme prescrições. Logo se via que estava gostando muito, e, observando-o, notei sua saliva, que era abundante (…).  Havia muito espaço livre em torno do velho, o que me pareceu estranho num lugar tão movimentado (…). Decidi ficar para ver o que aconteceria quando ele tivesse acabado.

Demorou muito, nunca vira um homem mastigar com tanto gosto e minúcia. Notei que minha própria boca se mexia de leve, muito embora não tivesse nada que mastigar. Senti uma espécie de respeito diante de um prazer mais notável que tudo o que eu já vira (…). Sua cegueira não me despertara compaixão. Ele parecia composto e satisfeito. Não se interrompeu nenhuma vez, nem mesmo para mendigar, como faziam o outro. Talvez tivesse o que queria. Talvez não precisasse de mais nada.

Quando terminou, lambeu os lábios algumas vezes, estendeu para a frente o braço direito com os dedos esticados e lançou sua súplica de mendigo com voz feliz. Um tanto acanhado, fui até ele e pus uma moeda de vinte francos na sua mão. Os dedos continuaram esticados, não podia mesmo dobrá-los. Levantou a mão vagarosamente e levou-a à boca (…).

Fiquei pasmo e confuso. Perguntava-me se não estava enganado. Talvez a moeda tivesse sumido de outro modo, sem que eu notasse. Tornei a esperar. Depois que ele mastigou com o mesmo gosto até se fartar, a moeda apareceu entre seus lábios. Cuspiu-a, coberta de muita saliva, na mão direita levantada. Então meteu a moeda numa bolsa que trazia pendurada do lado esquerdo.”

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