‘2666’, de Roberto Bolaño: trechos (2)

por Michel Laub

Exemplos de ênfase e/ou lirismo (ver posts anteriores):

“Um tinha a casa, ideias e dinheiro, o outro tinha a lenda, os versos e o fervor dos incondicionais, um fervor canino, de cachorros surrados a pau que caminharam toda a noite ou toda a juventude debaixo da chuva, o infinito temporal de caspa da Espanha, e que por fim encontraram um lugar onde enfiar a cabeça, ainda que esse lugar seja uma lata de água putrefata, com um ar ligeiramente familiar.” 

“Mais um dos milhares de alemães velhos e solteiros. Como a máquina solteira. Como o celibatário que envelhece de repente ou como o celibatário que ao voltar de uma viagem na velocidade da luz encontra os outros celibatários envelhecidos ou transformados em estátuas de sal. Milhares, centenas de milhares de máquinas solteiras cruzando diariamente um mar amniótico, pela Alitalia, comendo spaghetti al pomodoro e tomando chianti ou licor de maçã, com os olhos semicerrados e a certeza de que o paraíso dos aposentados não fica na Itália (e portanto não pode estar em nenhum lugar da Europa), e voando para os aeroportos caóticos da África ou da América, onde jazem os elefantes. Os grandes cemitérios na velocidade da luz.”

“Na prosa de Lonko Kilapán não só cabiam todos os estilos do Chile mas também todas as tendências políticas, dos conservadores aos comunistas, dos novos liberais aos velhos sobreviventes do MIR. Kilapán era o luxo do castelhano falado e escrito no Chile, em seus fraseados aparecia não só o nariz apergaminhado do abade Molina, mas também as carnificinas de Patrício Lynch, os intermináveis naufrágios da Esmeralda, o deserto do Atacama e as vacas pastando, as bolsas Guggenheim, os políticos socialistas elogiando a política econômica da ditadura militar, as esquinas onde se vendiam sopaipillas fritas, o mote com huesillos, o fantasma do muro de Berlim que ondulava nas imóveis bandeiras vermelhas, os maus-tratos familiares, as putas de bom coração, as casas baratas, o que no Chile chamavam de ressentimento e que Amalfitano chamava de loucura.”

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