‘2666’, de Roberto Bolaño: trechos (1)

por Michel Laub

Exemplo de enfado (ver post anterior):

“Do jantar saíram várias propostas e uma suspeita. As propostas eram: dar uma palestra na universidade sobre literatura espanhola contemporânea (Espinoza), dar uma palestra sobre literatura francesa contemporânea (Pelletier), dar uma palestra sobre literatura inglesa contemporânea (Norton), dar uma aula magistral sobre Benno Von Archimboldi e a literatura alemã do pós-guerra (Espinoza, Pelletier e Norton), participar de um colóquio sobre as relações econômicas e culturais entre Europa e México (Espinoza, Pelletier e Norton, mais o diretor Guerra e dois professores de economia da universidade), visitar os contrafortes da Sierra Madre e finalmente participar de um churrasco de carneiro num rancho próximo a Santa Teresa, churrasco esse que prometia ser concorridíssimo, com a presença de muitos professores, numa paisagem, segundo Guerra, de singular beleza (…).”

Exemplo de neutralidade:

“Duas semanas depois, em maio de 1994, foi sequestrada Mónica Duran Reyes ao sair da escola Diego Rivera, na colônia Lomas Del Toro. Tinha doze anos e (…) aquele era seu primeiro ano de secundário. Tanto a mãe quanto o pai trabalhavam na maquiladora Maderas de México, que fazia móveis de estilo colonial e rústico exportados para os Estados Unidos e o Canadá. Tinha uma irmã mais moça, que estudava, e dois irmãos mais velhos, uma moça de dezesseis que trabalhava numa maquiladora especializada em cabos e um rapaz de quinze anos que trabalhava com os pais na Maderas de México. O corpo apareceu dois dias depois do seqüestro, no acostamento da rodovia Santa Teresa-Pueblo Azul. Estava vestida e tinha a seu lado uma a pasta com os livros e cadernos. Segundo o exame patológico havia sido estuprada e estrangulada. Na investigação posterior algumas amigas disseram ter visto Mónica entrar num carro preto, com filme nos vidros, talvez um Peregrino, um MasterRoad ou um Silencioso.”