Paixão, vício, humilhação, nudez

por Michel Laub

Mais trechos do Partido das coisas (ver post anterior):

O cigarro – “Recuperemos de início a atmosfera a um só tempo brumosa e seca, desgrenhada, onde (…) o cigarro está sempre enviesado. A seguir, sua pessoa: uma pequena tocha muito menos luminosa que perfumada, de onde se destacam e caem, em ritmo a determinar, um número calculável de pequenas massas de cinzas. Por fim, sua paixão: esse botão em brasa, escamando em películas prateadas, que uma bainha logo formada das mais recentes circunda.”

A água – “É branca e brilhante, informe e fresca, passiva e obstinada em seu único vício: a gravidade, dispondo de meios excepcionais para satisfazer esse vício: contornando, transpassando, erodindo, filtrando. No interior dela própria esse vício também atua: desaba sem cessar, renuncia a cada momento a qualquer forma (…), deita-se de bruços no chão, quase cadáver, como os monges de certas ordens.”

A Borboleta – “Quando o açúcar elaborado nos caules surge no fundo das flores, como xícaras mal lavadas – um grande esforço se produz no solo de onde, súbito, as borboletas alçam vôo (…). Fósforo voejante, sua chama não é contagiosa. E, além do mais, ela chega muito tarde e pode apenas constatar as flores desabrochadas. Não importa: comportando-se como acendedora de lâmpadas, verifica a provisão de óleo de cada uma. Pousa no cimo das flores o farrapo atrofiado que carrega e vinga assim sua longa humilhação amorfa de lagarta ao pé dos caules. Minúsculo veleiro dos ares maltratado pelo vento como pétala superfetatória, vagabundeia pelo jardim.”

Caracois – “Ao contrário das fagulhas, que são hóspedes das cinzas quentes, os caracois gostam da terra úmida. Go on, avançam colados a ela com todo o seu corpo. Carregam-na, comem-na, excrementam-na. Ela os atravessa. Eles a atravessam. É uma interpenetração do melhor bom gosto, pois por assim dizer de uma mesma tonalidade matizada – com um elemento passivo, um elemento ativo, onde o passivo banha a um tempo só e nutre o ativo – que se desloca enquanto come (…). Observe-se, aliás, que não se concebe um caracol fora de sua concha sem estar se movendo. Assim que repousa, volta logo ao fundo de si mesmo. Inversamente seu pudor o obriga a mover-se assim que mostra a sua nudez, que entrega sua forma vulnerável. Assim que se expõe, anda.”