A laranja, uma definição

por Michel Laub

Do Partido das coisas, de Francis Ponge (Iluminuras, 190 págs., tradução de Ignacio Antonio Neis e Michel Peterson):

“Como na esponja há na laranja uma aspiração a recobrar a compostura após ter sido submetida à prova da expressão. Mas, onde a esponja é sempre bem-sucedida, a laranja nunca: pois suas células rebentaram, seus tecidos se rasgaram. Enquanto só a casca se restabelece molemente em sua forma graças a sua elasticidade, um líquido de âmbar se derramou, acompanhado de refresco, de perfume suaves, sem dúvida – mas frequentemente também da consciência amarga de uma expulsão prematura de sementes.

Será preciso tomar partido entre essas duas maneiras de suportar mal a opressão? – A esponja não é senão músculo e se enche de vento, de água limpa ou de água suja, conforme: essa ginástica é ignóbil. A laranja sabe melhor, mas é por demais passiva – e esse sacrifício odorante… é entregar-se realmente muito barato ao opressor.

Mas não é o bastante o que se disse da laranja ao lembrar seu modo particular de perfumar o ar e de regalar o seu algoz. É mister acentuar a coloração gloriosa do líquido que disso resulta, e que, mais que o suco do limão, obriga a laringe a abrir-se largamente tanto para a pronúncia da palavra quanto para a ingestão do líquido, sem fazer nenhum beicinho apreensivo com a anteboca, da qual não faz eriçarem-se as papilas.

E fica-se, de resto, sem palavras para confessar a admiração que merece o envoltório do tenro, frágil e róseo balão oval nesse espesso mata-borrão úmido cuja epiderme extremamente delgada mas muito pigmentada, acerbamente sápida, é justo assaz rugosa para capturar condignamente a luz sobre a perfeita forma da fruta.

Mas ao fim de um estudo por demais breve, realizado tão redondamente quanto possível – é preciso chegar à semente. Esse grão, da forma de um minúsculo limão, oferece por fora a cor da madeira branca do limoeiro, por dentro um verde de ervilha ou de germe tenro. É nele que se encontram, após a explosão sensacional da lanterna veneziana de sabores, cores e perfumes que constitui o próprio balão frutado – a dureza relativa e o verdor (aliás, não inteiramente insípido) da madeira, do galho, da folha: em suma, pequena, embora com certeza a razão de ser da fruta.”

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