Dez regras sobre humor

por Michel Laub

1. Humor involuntário quase sempre é melhor que o voluntário.

2. “Humor sutil” e “humor inteligente” são conceitos que apelam para a vaidade da plateia: ela se sente compelida a rir porque estão lhe dizendo que aquelas tiradas só são compreendidas por pessoas sutis e inteligentes.

3. Algo semelhante pode ser dito da ironia, do nonsense, da paródia: em sua vertente diluída, esses gêneros se anunciam como tal e também apelam – às vezes mendigam – por simpatia. Em sua vertente ideal, jamais piscam dando indicação da própria natureza, e assim correm o risco de soarem obscuros ou idiotas.

4. Nesse sentido, o gênero de humor mais corajoso – e portanto nobre – é a piada interna.

5. Quanto ao mais vulgar – o das piadas com início, meio e fim –, a eventual graça está na pessoa que conta, e nunca no que é contado. O problema é que contar piadas é algo raramente atraente para pessoas com verdadeiro senso de humor – vide a média da stand-up comedy –, e por consequência engraçadas.

6. O humor deveria ir sempre contra as certezas do público. Piadas de esquerda para o meio cultural, ou sátira do politicamente correto na TV aberta – trocando “anão” por “verticalmente prejudicado”, coisas assim – são um tipo de fraqueza, eventualmente de caráter.

7. Ainda sobre o item anterior: a diferença entre humor corrosivo – que sempre inclui constrangimento – e humor corrosivo demagogo – que não consegue deixar de ser didático – é aquela entre a primeira temporada do Office inglês e todas as temporadas da versão americana.

8. Alexandre Soares Silva: “Todo mundo que diz ‘se isso é humor, então eu não tenho nenhum senso de humor’ não tem nenhum senso de humor.”

9. Não há perdão para propaganda de cerveja, cerimônia de Oscar, celebridades entrevistadas por David Letterman.

10. Dostoiévski, Adorno e Coetzee  são autores engraçados.

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