Dez dicas para o crítico literário iniciante

por Michel Laub

(Publicado na revista Entre Livros, numa versão um pouco diferente, em 2007):

1. Um bom começo pode ser a leitura de O imperador do vinho, de Elin McCoy, biografia de Robert Parker, a figura mais controvertida do mundo da enologia. Uma nota alta na Wine Advocate, sua newsletter, é capaz de enriquecer um fabricante. Uma nota baixa pode ser a falência. Ao longo dos anos notaram que ele preferia vinhos frutados, e muitas propriedades passaram a chamar especialistas para se adequar a esse gosto, mudando a composição do solo e a forma do plantio e da colheita.

2. Parker talvez seja o exemplo máximo de crítico bem sucedido hoje – rico de fato, influente de fato. Quase todos os outros profissionais da categoria, trabalhem eles com música, cinema, televisão, videogames ou carnaval, estão mais próximos da figura descrita por George Orwell em Confissões de um resenhista: “Trinta e cinco anos, mas aparenta cinquenta (…) [Trabalha num] conjugado frio, mas abafado (…). Dos milhares de livros que aparecem todo ano, é quase certo que existam cinquenta ou cem sobre os quais teria prazer em escrever. Se for de primeira categoria na profissão, pode conseguir dez ou vinte. É mais provável que consiga dois ou três”.

3. Ou seja, prepare-se para o tédio e a pobreza. Você lerá só por obrigação. Nunca mais irá atrás de um livro indicado por um amigo. Nunca mais fechará um livro com a sensação de que, para o bem ou para o mal, e isso é quase regra para leitores mais experientes, não há o que dizer sobre ele. Sempre há: caso contrário, as contas não fecham.

4. Não se preocupe, no entanto: existem truques para encher essas páginas. Se você quer malhar um livro e não sabe como, recorra a adjetivos abstratos e por isso mesmo úteis. A timidez, por exemplo. Argumente que o autor não explora suficientemente os conflitos da obra. Outras alternativas: excesso de objetividade, de subjetivismo, de frieza, de dramaticidade. A categoria das “idéias fora de lugar”, deslocada de seu contexto original, também ajuda: um romance com personagens redondos e arco narrativo completo pode ser atacado por seguir um modelo burguês de contar histórias, incompatível com o nosso século; um romance sem essas características pode ser descartado, justamente, pela incapacidade de prender o leitor.

5. Para o caso contrário, isto é, se você quer elogiar um livro que acha ruim, há dois recursos clássicos: a) em relação à prosa desagradável ou à trama incompreensível, diga que ambas simbolizam o incômodo e a irredutibilidade de sentidos do mundo contemporâneo; b) em relação à estrutura caótica e fragmentária, quando não se entende o que é início, o que é fim e do que é mesmo que estamos falando, afirme que ela reproduz, como metáfora de forma – que, sabemos, é necessariamente conteúdo –, o caos fragmentário da sociedade pós-industrial.

6. Mas se, por um desses acasos raros, você está decidido a dizer o que pensa, há também dois caminhos a seguir. O primeiro é confiar nos seus juízos pessoais, não temendo a exposição de preconceitos em público. Assim você terá mais chances de ser considerado ranheta, rancoroso e/ou pervertido.

7. O segundo caminho é se alçar a porta-voz de um “sistema”, para o qual são válidas mesmo obras que não são do seu agrado – por questões sociológicas, morais ou de “voz” (raça, credo, gênero). Mesmo que os motivos sejam nobres – sua humildade ongueira em não se considerar juiz definitivo do que é certo ou errado em estética e cultura –, há boas probabilidades de você ser visto como um crítico sem alma, sem coragem, sem caráter.

8. Independentemente da escolha, a reação geral é inevitável. Dirão que seu desejo secreto era ser ficcionista ou poeta. Dirão que você é leviano demais, complacente demais, que tem algum interesse obscuro – ascender na carreira, agradar aos pares da academia, fazer sexo (sem amor) – ou está a soldo de alguma entidade conspiratória – grupos literários rivais, maçons, seitas, partidos políticos de direita (se você receber salário da mídia golpista) ou esquerda (se escrever numa publicação financiada pela Petrobras).

9. Em resumo: você será odiado. Pelos autores que você desanca. Pelos autores que você ignora. Pelos autores que você elogia pelos motivos sempre errados. Pelos editores, tradutores, assessores de imprensa e outros críticos. Pela maior parte do público, mesmo os que o lêem com frequência (“Só para me irritar”).

10. Mas se, apesar de tudo, você insiste em abraçar a profissão, é bom se perguntar o motivo. Quando criança, usando o olfato hoje segurado em cerca de US$ 1 milhão, Robert Parker era capaz de listar ingredientes dos pratos que estavam sendo cozinhados na vizinhança, habilidade que o tornaria campeão absoluto dos “testes cegos” de uvas e safras. Isso se chama vocação. É o seu caso? Você se sente preparado para exercê-la de modo tão desanimador? Se a resposta for sim, ótima notícia. Não só para você, que ao menos achou um jeito honesto de ganhar a vida, mas para o meio literário. Porque não há nada de que ele necessite mais, hoje e em qualquer tempo: alguém que o ajude a enxergar, avaliar, selecionar. Diferentemente do que se diz, um crítico autêntico não é apenas o advogado do público. Ele é, em última instância, o maior defensor da própria literatura.