Para quem se queixa

por Michel Laub

Jung Chang em Cisnes selvagens – três filhas da China (Companhia das Letras, 485 págs.):

“Os pés da minha avó foram enfaixados quando ela completou dois anos. A mãe, que tinha ela própria os pés enfaixados, primeiro enrolou um pedaço de pano branco de uns seis metros de comprimento em torno dos pés dela, dobrando todos os dedos, com exceção do dedão, para dentro, sob as solas. Depois colocou uma grande pedra em cima para esmagar o arco. Minha avó gritava de dor e pedia-lhe que parasse. A mãe teve de amarrar-lhe um pano na boca, para amordaçá-la. Minha avó desmaiou várias vezes de dor.

O processo durava vários anos. Mesmo depois de quebrados todos os ossos, os pés tinham de ser enfaixados dia e noite com pano grosso, porque assim que eram soltos tentavam recuperar-se. Durante anos minha avó viveu com dores constantes e excruciantes. Quando implorava à mãe que desamarrasse as faixas, a mãe chorava e dizia-lhe que os pés desatados arruinariam toda a sua vida, e que fazia aquilo para a futura felicidade dela.

Naquele tempo, quando uma mulher se casava, a primeira coisa que a família do noivo fazia era examinar seus pés. Achava-se que os grandes, ou seja, os normais, traziam vergonha à casa do marido (…). Às vezes a mãe se apiedava da filha e retirava a faixa; mas quando a criança crescia, e tinha de enfrentar o desprezo da família do marido e a desaprovação da sociedade, culpava a mãe por ter sido fraca demais.”