A relação entre ódio, castidade e salário

por Michel Laub

Nelson Rodrigues em A menina sem estrela (Companhia das Letras, 279 págs.):

“Enquanto não tive ordenado, assumia, diante de Roberto Marinho, uma atitude de humildade, subserviência (…). Durante aquele período, a fome apagou a minha identidade. Eu não era eu mesmo (…). E, súbito, comecei a ganhar de O Globo (…). Duzentos mil-reis no fim do mês (…). Aí aprenderia, como já disse, que o Raskolnikov exige um salário. O ódio que leva o sujeito a matar uma usurária, ou a dinamitar um czar, precisa de um ordenado. Mesmo o homicida sexual tem que ser um remunerado. Ou então não chega nem ao desejo.

Eis o que eu queria dizer e não encontrava palavras: – durante o meu desemprego e, portanto, durante a fome total, não desejei ninguém. Não pensava em mulher. De vez em quando procuro me lembrar se, naquela fase, em algum momento, quis  alguma mulher. Não me lembro de nenhuma figura feminina, nenhuma, nenhuma. Só me lembro da minha castidade.

E, agora, o sexo, a luta de classes, o amor, o ódio, a inveja, os pecados capitais e subsidiários trabalhavam novamente a minha carne e a minha alma. E repito: – fui, por muito tempo, uma espécie de Raskolnikov de Roberto Marinho. Odiei sua casa, as suas varandas, os seus automóveis, os seus ternos, os seus cristais.”