Uma despedida

por Michel Laub

Um dos narradores de Últimos pedidos, de Graham Swift (Companhia das Letras, 301 págs.), no momento em que joga as cinzas de um velho amigo no mar:

“Seguro o pote com as duas mãos de novo, dando uma olhadinha dentro, e digo: – Venham, venham. – Se juntam todos pra tirar mais um punhado. Não sobrou muito mais do que o suficiente pra uma rodada pra quatro homens. Mergulham a mão de novo, um por um. Mergulho de sorteio. E eu mergulho e todos nós jogamos outra vez, um ralo de rastro de branco, como fumaça, antes de se ir, e algumas gaivotas se precipitam vindas de não sei onde e numa guinada se agastam de novo, como que foram ludibriadas. Então eu sei que não tem bastante pra uma outra divisão, outra rodada completa, de modo que eu mesmo começo a escavar o resto, parece que eles não se importam. Escavo e escavo como um animal cavando a toca, e no fim eu sei que vou ter que erguer o pote e bater como a gente bate quando chega ao fundo de uma caixa de cornflakes. Um punhado, dois punhados, tem só dois punhados. Digo: – Adeus, Jack. – O céu e o mar e o vento se misturam, mas acho que não faria nenhuma diferença se não estivessem misturados (…). O rosto do Vic e do Vincey parecem bolhas brancas, mas o do Lenny parece uma luz de farol, e do outro lado da água dá para ver as luzes de Margate. Dá para ficar no fim do Píer de Margate e olhar pra Dreamland. Depois jogo o último punhado e as gaivotas voltam atrás de uma segunda oportunidade e eu estendo o pote, sacudindo, como se devesse jogar ele dentro do mar também, uma mensagem numa garrafa, Jack Arthur Dodds, salve nossas almas, e as cinzas que carreguei nas minhas mãos, que eram o Jack que uma vez esteve vivo, são carregadas pelo vento, são rodopiadas pra longe pelo vento até as cinzas se transformarem no vento e o vento se transformar no Jack de que nós somos feitos.”