‘Fun home’, de Alison Bechdel

por Michel Laub

Nunca entendi por que certos recursos narrativos viram um tabu para a crítica. A voz em off no cinema, por exemplo: é verdade que ela pode ser um atalho óbvio para resolver impasses na história – transformar em linguagem visual ou numa cena com ação e diálogos uma ideia que existe apenas como enunciado -, mas e daí? Onde está escrito, além da velha norma da literatura americana de meados do século 20, que mostrar é sempre melhor que dizer? Tudo depende, claro, de como se diz e como se mostra.

Há pouco li um excepcional romance em quadrinhos, Fun Home (Conrad, 238 págs., tradução de André Conti), quase todo construído em cima do que em cinema seria uma narrativa em off: frases no alto dos quadros que explicam a situação que está sendo mostrada nos desenhos. O achado de Alison Bechdel, a autora, é não deixar que as duas informações sejam redundantes. Mais que isso: ambas somam-se, por meio de registros diversos e às vezes opostos, para atingir um tom intermediário que é a melhor qualidade do livro. Se o texto descreve momentos dramáticos, por exemplo – a morte, os conflitos familiares, os ritos da protagonista ao descobrir sua homossexualidade -, o traço sempre remete a personagens doces, a um tipo de humor que foge do cinismo e da mágoa comuns nesse tipo de autobiografia.

A maneira como Bechdel monta a trama também escapa ao convencional: o que seria um gancho poderoso de expectativa – o segredo guardado pelo pai – é desarmado logo no início, numa única frase de um único quadro, para só retornar muitos capítulos adiante; episódios paralelos com potencial óbvio de drama e comédia – como a do transtorno obsessivo-compulsivo da personagem – surgem e desaparecem abruptamente, em meio a um capítulo e em não mais que cinco páginas; o desfecho é conhecido desde o início, e a evolução para chegar a ele é várias vezes anunciada, e mesmo assim não perdemos o interesse na história. Ao final, em vez de uma catarse surgida de surpresas cujos indícios foram cuidadosamente plantados, temos o reforço de informações que já conhecíamos, mas que nem por isso deixam de soar como novidade – dita, mostrada ou ambas as coisas, não importa.