Entrevistas: Martin Amis (2)

por Michel Laub

(Continuação do post de ontem):

Escritores – “Na Inglaterra, a visão de um romancista sobre um evento político é menos importante do que a de um homem comum. Mas nos Estados Unidos é diferente. Lá há uma longa tradição e uma necessidade de os escritores dizerem ‘o que é a América’ – eles são apenas um agrupamento de italianos, judeus, etc., ou um país com uma alma, uma identidade e um coração?”

Ian McEwan –  “Um escritor maravilhoso. Normalmente acham que estamos competindo entre nós, mas não estamos. Somos amigos, mas cada um está tentando escrever os próprios romances.”

A geração McEwan, Julian Barnes, etc. – “Acho que tudo o que temos em comum é o local de nascimento, que é muito próximo. E a época em que vivemos.”

Literatura nacional e internacional – “A literatura é mais internacional hoje do que no passado, graças à dominação do idioma inglês. É como uma língua franca. O intercâmbio entre escritores é mais comum também. Mas há tantos tipos de literatura quanto autores.”

Os próprios livros – “Gosto mais do próximo. Sempre. Gosto menos dos primeiros (Rachel Papers, Success). O problema de iniciar jovem é que você cresce em público. Isso tem valor, mas o trabalho pode constrangê-lo depois. Os primeiros livros são vivos e cheios de energia, mas parecem um tanto imaturos agora.”

Money – “[o primeiro que livro que escrevi como gostaria foi] Money (…). Não foi minha intenção inicial, mas acabou sendo isso [uma sátira dos anos Thatcher]. A raiva que há ali acabou tendo relação com o desgosto em relação à forma como o país estava sendo governado. Mas você nunca sabe muito o que está fazendo até terminar o livro.”

Time’s Arrow e a narrativa de trás para diante – “Aquilo já havia sido feito antes, como tudo. Há um conto de Scott Fitzgerald [O curioso caso de Benjamin Button] e um romance de Philip K. Dick que o fizeram (…). Achei que era uma idéia poética, mas inútil. Então li The Nazi Doctors, do meu amigo Robert Jay Lifton, e pensei que seria interessante ver o Holocausto de trás para a frente, porque assim, e só assim, a propaganda e a ideologia poderiam fazer sentido, e se poderia dizer o quão errados eles estavam.”

Ideologia – “Estou escrevendo um romance autobiográfico que poderia ser visto como uma resposta às batalhas da guerra cultural que parecem acontecer toda vez que lanço um livro. É sobre uma geração e outra, sobre uma nova ideologia, o igualitarismo, o multiculturalismo. Estou preparado para essa batalha. Normalmente me perguntam se é difícil ser um romancista filho de um romancista. Sempre digo que é fácil, mas agora ficou difícil, porque você é identificado ridiculamente como um elitista genético. E a ideologia está mudando, então agora eu sou o inimigo deles. A idéia de um talento herdado é terrível para essa ideologia, ofende-a.”

Futuro – “Suspeito que o romance voltará a ser o que era quando comecei, isto é, uma esfera menor de interesse. Ele vai se tornar mais quieto, mais para pessoas preparadas ou da academia do que para o público dos best sellers. (…) Para a literatura, foi como um bom período de férias ter tido a dimensão que teve nos anos 70, 80 e 90. Mas isso não me incomoda muito. Quando comecei, era assim. Então não vou me chocar de voltar a esses parâmetros.”