Entrevistas: Martin Amis (1)

por Michel Laub

(Trechos de uma entrevista que fiz com o autor de Money, London Fields e Casa de encontros em 2004):

O que gosta de ler – “Não procuro por histórias tanto quanto por níveis de percepção. O que quero saber é a maneira como os escritores interpretam o mundo, em que nível isso se dá, mais do que a respeito de sagas familiares ou narrativas tradicionais. Não tem a ver com contar histórias ou não, e sim com como se escreve.”

Ficção hoje – “Você vê o que aconteceu com a poesia na última geração. É como se o mundo se acelerasse em tal dimensão que não podemos diminuir o ritmo o suficiente para ler poesia. A poesia perdeu seu poder na imaginação porque não só desacelera o tempo, como de fato para o relógio. Um poema lírico pede que você examine um determinado momento. E não se gosta mais dessa introspecção. Gostamos que as coisas se movam numa velocidade mais reconhecível. O mesmo se passa com a ficção. Não queremos, ou eles não querem, um tipo de romance de dicção meditativa; preferem um tipo que mais facilmente lembre a velocidade da vida.”

Pós-modernismo – “O grande pós-modernismo europeu está acabado como ficção. Era um grande insight de como o mundo funcionava; não era, no fim das contas, um filão ficcional muito produtivo, rico por si só. Era muito auto-consciente, muito limitado, e agora o romance parece ter evoluído para uma invenção mais ampla. Não há, agora, uma grande tradição dominando o romance. Contar histórias voltou a ser importante. Enredos voltaram a sê-lo.”

O pai, Kingsley Amis – “Meu pai se identificava muito mais com uma narrativa que não pregava peças no leitor. Ele escreveu alguns romances com truques, mas não eram pós-modernos. Você sempre sabia o que estava se passando, as regras da realidade eram estáticas. Na minha geração, há uma maior liberdade em relação a essas regras, com o realismo mágico e o pós-modernismo. A realidade apresentada ao leitor não é tão confiável. Mas agora há um movimento contrário. A próxima geração, suspeito, vai precisar de velocidade e enredo. Interesse humano, não abstrações (…). Nos anos 80, talvez, a presença do pós-modernismo deixasse as coisas mais fechadas. Um romance como Money, por exemplo, enfureceria o meu pai. Aliás, enfureceu… Agora, apesar da liberdade de abordagem, há a volta das leis da realidade ao romance. É a minha impressão.”

Amadurecimento – “Não acho que você possa voltar no tempo e dizer que teria feito diferente. Você fez da maneira como deveria fazer à época. Assim é um romance, ele apresenta dificuldades, e aos 35 você as enfrenta de forma diferente do que quando você tem 55. A sua abordagem, a sua disposição para o risco, tudo muda.”

Crítica – “Você choca por acidente. Os críticos não dirão que estão chocados. Eles não chegaram a dizer isso de mim. Nas críticas, o choque aparece de outra forma: ultraje moral, tradicionalismo.”

Escrever crítica – “Isso sempre foi parte do que fiz. Me parece como escrever com a mão esquerda. Não é algo que venha naturalmente. É encarado mais como trabalho do que acontece quando escrevo ficção. Mas ainda acho importante fazê-lo. Ter vozes críticas vigorosas não é vital para a literatura; é vital para a civilização.”

Imprensa – “[A relação hoje] é pior, no meu ponto de vista. Na Inglaterra eles costumavam atacar a minha pessoa. Agora atacam a minha obra, o que é pior, porque é como atacar meus filhos.”

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