‘Salve geral’

por Michel Laub

Salve geral escorrega em dois ou três diálogos e dois ou três momentos de esquematismo, mas de resto tem impacto, fluência e atuações muito boas de Andréa Beltrão, Denise Weinberg, Chris Couto e outros. Só que não é o tipo de filme que possa ser criticado apenas esteticamente. Afinal, seria ingênuo ignorar que a própria escolha do tema – o levante do PCC em 2006 e a maneira como o governo de São Paulo lidou com o fato – tem algumas implicações políticas.

Nesse sentido, o diretor e co-roteirista Sérgio Rezende enfrenta o velho paradoxo moral de histórias contadas sob o ponto de vista de bandidos ou concentradas neles. Ou seja, o tempo todo torcemos para que as coisas dêem certo para a protagonista, uma professora de piano que acaba se envolvendo com o crime, e também para Marcola, sua advogada e seus parceiros (todos com nomes trocados, claro). Num western ou policial de ficção não é algo grave, mas numa trama tão colada a uma realidade recente pode haver desconforto ao se ver homens que deixaram famílias inteiras destroçadas serem tratados como revolucionários do sistema prisional, com seu “lado humano” mostrado com tanta ênfase – ou mais – do que seus crimes. É certo que as cadeias no país são hediondas, e que todo assassino é capaz de ser justo nas horas vagas, mas é uma questão de escolha: basta comparar os diálogos carismáticos ou comprometedores que os detentos protagonizam, as cenas em que eles são vítimas ou algozes, o grau de brutalidade que eles sofrem ou fazem sofrer, e aí se tem um discurso.

A favor de Sérgio Rezende, dá para dizer que a abordagem busca uma compreensão das razões do levante, e não seria possível dar conta dela sem apresentar a versão do “outro lado”. Um argumento razoável, mas que parece ter sido pouco lembrado quando o que está em cena são as ações da polícia: ali os personagens têm bem menos relevo psicológico e social, e o filme não se intimida em mostrar um alto agente da segurança pública (que deve ter nome, sobrenome e motivos na vida real) matando dois inocentes à noite, pelas costas. Ou o diretor do presídio (que também tem nome, sobrenome e motivos na vida real) envolvido numa operação que ocasionou o massacre de presos num ônibus. Ou o secretário de segurança (de quem todo mundo sabe o nome e o sobrenome, mas talvez não os motivos) negociando com o PCC e mais preocupado com a imagem do governo que com as centenas de pessoas que morriam nas ruas. Mais uma vez: não duvido que tudo isso tenha acontecido, até porque não conheço os inquéritos da época e seria o último a defender a priori as ações da polícia e das autoridades brasileiras na área. Apenas registro a certeza com que alguns são condenados e outros até o são, mas só depois dos poréns e argumentos necessários.

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