Entrevistas: Amós Oz

por Michel Laub

Trechos de uma entrevista que fiz em 1999 com o autor de A caixa preta, Não diga noite e De amor e trevas:

Literatura e família – “Essencialmente, eu me reputo um escritor da vida doméstica. Escrevo música de câmara. Minhas histórias sempre ou quase sempre acontecem dentro do ambiente familiar. (…) A família é certamente o mais interessante dos temas, o mais misterioso deles. É a mais surrealista instituição do mundo. Por 5 ou 6 mil anos a família e o casamento vêm sendo atacados por quase todas as ideologias ou religiões. Jesus defendeu que se pusesse um fim a ela e que em seu lugar se construísse uma comunidade de crentes. Platão sugeriu uma alternativa a ela. Toda nova ideologia ou religião parece começar com um ataque à família. E, de alguma forma, apesar disso, a família sobrevive: no Irã, no Amazonas, em qualquer lugar, sob qualquer regime. Isso é um grande mistério. As pessoas não são monogâmicas por natureza, pelo menos grande parte delas. Mesmo assim, casam-se e jogam o jogo ancestral de pai, mãe, irmão, irmã. Por isso a família é o tema mais universal: todos vivem a tensão e as contradições dessas relações que não se explicam, que são misteriosas.”

Literatura e moral – “[a moral está presente] na minha literatura, sim, mas não penso que isso deva estar em qualquer literatura. Alguns grandes autores não a têm em suas obras. Gogol, por exemplo. Duvido muito que haja moralismo em Kafka. Acho que a obra dele trata mais de metafísica do que de qualquer outra coisa.”

Literatura e política – “Não estou em competição com os jornais. Não acho que seja o meu negócio fazer descrições de Israel como as da CNN. Escrevo sobre os lados mais introvertidos da vida e de Israel. Tento nunca escrever sobre política.”

Local e universal – “Nenhum autor pode ser universal, a menos que o seu tema sejam os aeroportos ou os grandes hotéis. Toda literatura de essência é local e, a partir daí, universal. (…) Cada lugar tem o seu próprio sistema de relações, a sua conformação de valores, a sua combinação de sensibilidades. Minha literatura é israelense porque a maioria dos meus personagens é de Israel. Alguns são árabes, também, mas a maioria é composta por judeus israelenses, que têm histórias pessoais cheias de neurose e perseguição. Todos são sobreviventes, todos viveram catástrofes. Eles ou os pais deles vieram do inferno. Todos são imigrantes cheios de medo e tensão, e isso é muito visível nos meus livros. É aí, também, que está o cenário – seja ele Jerusalém ou o deserto.”

Sobre Operação Shylock, de Philip Roth, que fala da questão judaica numa história passada em Israel – “Comecei o livro, mas depois de um tempo perdi o interesse e acabei desistindo. (…) Acho que ensaístas podem escrever em qualquer lugar, enquanto contadores de histórias deveriam situar essas histórias em lugares que conheçam muito bem. Eu relutaria bastante em escrever uma história sobre judeus que vivem em São Paulo, por exemplo, porque não sei nada sobre a língua, entre muitas outras coisas. Então, acho um equívoco um autor norte-americano escrever um romance sobre a vida de Israel.”

Sobre se acredita em deus – “Acho essa a questão mais íntima que me pode ser feita. (…) É mais fácil falar sobre a minha vida sexual do que sobre isso. Posso dizer que não vou à sinagoga, que não sou um homem religioso. Não acredito em religião e tenho a impressão de que Deus também não está interessado em religião. Um dos meus personagens diz que Deus não é religião. Talvez isso responda a sua questão.”

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