Arnaldo Jabor, o AI-5 e o delírio

por Michel Laub

Sobre o tema do post de ontem, não é apenas a justificativa histórica, a circunstância de ter vivido tanto o nazismo quanto o comunismo, que dá autoridade e verossimilhança à prosa de um escritor como Imre Kertész, para quem a desolação da Hungria nos anos 1990, cenário do livro Liquidação (Companhia das Letras, 112 págs.), às vezes guarda aspectos de horror semelhantes aos da burocracia stalinista ou de um campo de extermínio.

No caso de Kertész, é por meio de uma solenidade até um pouco árida demais que o texto alcança essa “verdade”. No de Thomas Bernhard, como já cansei de dizer aqui, é por meio de uma falsa ênfase, que também traz em si um tipo particular de humor – recurso muito mais importante, por exemplo, do que o fato de ele enxergar a herança da Segunda Guerra por baixo da aparência ordeira da sociedade austríaca na segunda metade do Século 20.

De qualquer forma, são analogias construídas, nunca apenas declaradas. Um exemplo oposto é o texto que Arnaldo Jabor publicou no número dois da revista Granta (Alfaguara, 2008, 280 págs.), no qual descreve uma bad trip de ácido logo depois da decretação do AI-5, em 1968. Ninguém duvida da dureza daqueles tempos, mas seu retrato inevitavelmente se dilui na afetação de passagens como esta: “Eu buscara um desbunde alegre e florido como o dos americanos do flower power, mas saquei que ali a devastação de 68 nas ‘melhores cabeças da minha geração’ seria tão brutal como a tortura que enchia os quartéis de gritos”. Em pleno delírio, ele lembra: “Intuí, confusamente, que a história detesta indefinições e que, nos países miseráveis, ela sempre se define pelo pior”. E segue: “Entendi com horror que a política iria virar uma piada ridícula dali para a frente, um pesadelo cômico”.

Como Kertész ou Bernhard na ficção, Jabor encerra sua memória relacionando a opressão do passado e um suposto totalitarismo do presente: “Sinto também (estarei muito louco?) que essa liberdade maluca e sem objetivo, fetichizada, essa invasão de corporações globais, esse mundo dividido em deus do oriente e deus do ocidente, entre Bush e Obama, a massificação dos desejos e das culturas, tudo parece um Ato No 5 sem rostos militares, mas que deve estar matando outras coisas essenciais que sobraram em nós, como aquelas que a ditadura matou, quarenta anos atrás.”

No limite, e Jabor provavelmente concordaria, não há termos de comparação entre a ditadura militar e a vida brasileira de 2009. Assim como não há entre o nazismo e a Hungria ou a Áustria atuais. O fato de aceitarmos ou não que um escritor diga o contrário é uma questão estética, que se resume ao seu talento retórico e ficcional e prova, para o bem e para o mal, como a literatura sempre pode se distanciar da vida.