Terror no McDonald’s

por Michel Laub

Entre as observações que o protagonista de Austerlitz faz sobre paisagens e arquitetura (ver post de 24/8), há uma que poderia resumir todo um universo ao qual pertence a ficção de W. G. Sebald. “O átimo de terror de um flash”, diz o personagem sobre a iluminação branca de um McDonald’s em Londres, “fora ali perpetuado, e não havia mais nem dia nem noite”.

A abordagem é típica de uma linhagem de intelectuais para quem certos aspectos do mundo contemporâneo, como a vida burguesa e a cultura de massas, podem encarnar sintomas de um pesadelo totalitário. Por razões que mereceriam um ensaio à parte, essa acabou sendo uma visão mais comum em autores que viveram sob a presença ou a herança ainda forte do nazismo ou do comunismo. Não é a mesma coisa que J.M. Coetzee escrevendo sobre os rescaldos do Apartheid, ou António Lobo Antunes remoendo a herança do colonialismo português: em Sebald – como em Elias Canetti e Imre Kertész, antes, ou no próprio Thomas Bernhard depois –, a intensidade da experiência ou da memória do horror parece mais profunda e tem uma natureza imobilizante. No subtexto de suas obras, o passado se estende pelo presente até quase se confundir com ele, o que faz com que algo tão comum e doméstico para a maioria das pessoas – pense num quarteirão com queijo salvador antes de voltar para casa – possa ser equivalente, mesmo que em termos apenas sugestivos, a uma cena da Alemanha de 1942.