Sacha Baron Cohen e o discurso diluído

por Michel Laub

Até a estréia de Brüno, dava para dizer que havia pelo menos uma coisa em comum entre Sacha Baron Cohen e Michael Moore: o humor baseado no constrangimento. O espectador ria e ao mesmo tempo sentia vergonha pela estupidez e o absurdo do que estava sendo mostrado – a situação, os personagens, os diálogos. Tanto Cohen (de forma meio fictícia) quanto Moore (de forma supostamente real) trabalhavam com o formato do documentário, e o alvo de ambos era algo que vagamente se pode chamar de espírito americano.

Havia uma diferença básica também: enquanto Moore levava a sério sua cruzada política contra alvos relativamente fáceis – Bush, o Iraque, a indústria de armas, as grandes corporações de saúde –, Coen trabalhava com um repertório bem mais rico de ambigüidades, tratando de espinafrar tanto a cultura conservadora quanto o politicamente correto, tanto a intolerância quando o discurso da diversidade. Talvez por isso, mas não só por isso, Borat é um filme mais honesto que Bowling for Columbine ou Farenheit 11/9.

Com Brüno, porém, Cohen amaneirou seu poder de fogo. Primeiro porque não constrange mais ninguém: as figuras reais (ou atores que interpretam figuras reais) em geral dizem e fazem a coisa certa, e a vergonha, que seria exclusiva do protagonista, acaba diluída pelo óbvio exagero das cenas, um registro muito mais próximo da comédia física do que da ironia e do escracho. Depois porque o principal alvo é igualmente fácil: nem a indústria da moda e das celebridades é capaz de defender o que se identifica hoje como o “vazio” e a “futilidade” desse meio.

Está longe de ser um mau filme, e algumas passagens são tão hilariantes quanto as de Borat, mas há algo de sintomático quando um comediante subversivo encerra sua história fazendo uma piada conjunta – que quer soar irônica, mas é só deferência – com Bono e Sting.

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