Verdades pouco ditas do meio literário (2)

por Michel Laub

Sobre a competição entre autores Ao contrário do que diz o senso comum, tudo o que o escritor quer é gostar dos livros dos seus colegas. Esse é um dos motivos por que sua leitura nunca terá a mesma isenção da que faz o crítico descompromissado ou o público: frase a frase, parágrafo a parágrafo ele torce para que o texto lhe diga alguma coisa, para que ele não precise experimentar a sensação auto-corrosiva de vergonha ao elogiar o autor seu amigo no bar. Não há quem prefira ser hipócrita a ser generoso, mas claro que estou falando do que vejo – para minha perplexidade, ouvi dizer que por aí também existe inveja, rancor, mesquinharia.

Sobre críticas ruins – Evidentemente que uma resenha positiva dá uma certa alegria, assim como uma negativa pode estragar a manhã (e o início da tarde, talvez), mas a importância disso é um tanto relativa. De tanto ser cumprimentado por textos que me desancavam, não foi difícil concluir – surpresa – que a maioria das pessoas não lê críticas, ou lê sem muita atenção, ou lê mal. Daí que devemos torcer apenas para que essas críticas a) saiam na imprensa escrita, e não na Internet, onde vão nos assombrar via Google pelo resto da vida; b) tenham títulos e chamadas meio neutros; c) deixem a cacetada lá para o penúltimo parágrafo ou coisa assim: porque aí, numa silenciosa e apoteótica vingança nossa, a chatice, cretinice e irrelevância do crítico que fala mal da gente – os que elogiam são sempre ótimos – afastará o leitor bem antes.