Dois DVDs: ‘Partículas elementares’ e ‘Once’

por Michel Laub

Uma das regras em entrevistas de atores, diretores e produtores cinematográficos é jamais definir um filme pelo que ele é, e sim a partir de sentidos graves, maiores. Há pelo menos uns 25 anos que Hollywood, a Europa e o mundo só produzem histórias sobre “o amor”, “o destino”, “a civilização de hoje”, e não sobre um lagarto que sofre mutação genética e por isso destrói uma metrópole a patadas, ou um velho que usa fraldas e gosta de dizer galanteios para as enfermeiras.

Então, não é difícil imaginar como John Carney e Oskar Roehler, diretores de Once e Partículas elementares, respectivamente, apresentariam seus filmes. O primeiro seria um tratado sobre a doçura, sobre como é possível ser simpático, talentoso e altruísta mesmo ganhando a vida como músico de rua no frio cinzento de Dublin. Já o último, bem, acho que dá para afirmar que é sobre escrotidão – porque é assim que normalmente se define um sujeito que se masturba lendo ensaios literários de alunas de 18 anos – ou sobre constrangimento – algo que parece comum em campings nudistas da Alemanha, onde os freqüentadores chegam calçando aquelas sandálias, alguns inclusive de meia, ou em casas de swing onde 138 pessoas feias e tristes dividem uma sala cheia de espelhos para debater Kant e os imperativos categóricos sob uma perspectiva, digamos, multidisciplinar.

Como a escrotidão e o constrangimento são mais freqüentes entre humanos do que a doçura, é provável que haja mais verdade em Partículas elementares do que em Once. Mas as aparências nem sempre estão certas: o filme de Roehler é muito mais engraçado do que sugere, graças ao sarcasmo e à inteligência do roteiro, baseado num romance de Michel Houellebecq, enquanto o de Carney se move pela tristeza, mesmo sendo uma daquelas raras tramas que poupam o espectador de qualquer angústia, deixando-o entregue à mitologia romântica, muitas vezes ingênua, mas também com alguma poesia, de seu enredo.