Mitos do cinema independente

por Michel Laub

A idéia de que o cinema independente americano traria uma verdade que escapa à produção hollywoodiana típica (ver post anterior) não faz muito sentido. Por duas razões:

1) porque faz tempo que esse cinema é um braço dos grandes estúdios, seja na produção, seja na distribuição. Assim como as majors da indústria fonográfica têm (ou tinham) seus pequenos selos para suprir nichos de mercado, Hollywood soube aproveitar o prestígio de filmes consagrados em festivais como o Sundance para abrir uma frente de negócios bastante lucrativa – já que os custos de produções sem astros nem efeitos especiais são baixos, e a carreira delas no exterior e em DVD costuma ser longa. A família Savage, por exemplo, é da Fox Searchlight, divisão da 20th Century Fox, que por sua vez é a distribuidora internacional do filme.

2) porque a idéia reproduz uma crítica ideológica e obsoleta, segundo a qual o cinemão hollywoodiano seria uma espécie de anestésico receitado às massas, uma propaganda subliminar favorável ao “sistema” e seus alicerces – a economia de mercado, a família, os bons costumes, o conformismo político. O cinema independente, por não depender de grandes financiadores que interferem no processo criativo, impondo sua visão de mundo corporativa e conservadora, é que faria o contraponto mostrando a imagem da “América como ela realmente é”.

Isso poderia ter alguma lógica se não fosse Hollywood, na verdade, a ponta de lança cultural mais evidente da crítica a esse sistema. Para quem duvida, entre muitos outros exemplos, basta conferir alguns dos clichês mais freqüentes nos filmes das 20th Century Fox da vida: numa firma de advogados, os veteranos corruptos assediam o idealista novato; numa guerra ou num quartel, os generais hipócritas e covardes armam para cima de tenentes honestos e corajosos; numa delegacia, o anti-herói descobre um esquema criminoso envolvendo seu chefe; no mundo dos esportes, o entusiasmo do atleta sucumbe diante de dirigentes mafiosos.

Alguém poderia argumentar que a crítica à autoridade é apenas uma forma de veicular o tema do voluntarismo individual, também tão próximo ao imaginário americano. Mas isso não impede que a noção de um poder ilegítimo, sempre baseado na injustiça ou na corrupção, seja a grande fonte de histórias de gêneros tão diversos, que vão do policial ao thriller político, do drama de tribunal ao blockbuster de fantasia. Se isso não é cinema de contestação, cujo alvo recorrente é um modelo de sociedade, o que mais poderia ser?

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