Michel Laub

Nick Hornby (2)

Trechos de Frenesi polissilábico (ver post anterior):

Sobre romances curtos – “A obsessão pela austeridade é uma tentativa de (…) fazer com que a literatura se pareça com um trabalho de verdade, tipo pegar na enxada ou derrubar árvores (…) Mandem brasa, jovens escritores – desfrutem de uma piadinha ou de um advérbio! (…) Os leitores não vão se importar! Vocês já viram a grossura dos livros vendidos nos aeroportos? A verdade é que as pessoas curtem informações inúteis. (E, de forma contrária, os escritores dos escritores, os que podam e peneiram, tendem a depender mais da aprovação dos críticos que dos direitos autorais para viverem.)”

Sobre metalinguagem – “O último refúgio do crítico picareta é qualquer versão da seguinte sentença: ‘Em última análise, esse livro é sobre a própria ficção/ esse filme é sobre o próprio filme’. Eu mesmo já usei essa frase, na época em que escrevia críticas sobre vários livros, e posso dizer que é tudo balela: invariavelmente o negócio significa apenas que o filme ou o romance chamou a atenção para o seu próprio estado, o que não nos leva a lugar nenhum, e é o motivo pelo qual o crítico nunca nos diz exatamente o que o romance tem a dizer sobre a própria ficção.”

Sobre No name, de Wilkie Collins – “Se você comprar a edição Classics da Penguin, entretanto, não leia a sinopse na parte de trás. Ela meio que revela a primeira mudança de trama (que, aliás, é fantástica), justificando que a própria é ‘revelada logo cedo’, só que o ‘logo cedo’ acaba sendo a página 96 (…). Aqui vai uma nota para as editoras: algumas pessoas lêem romances do século XIX por diversão, e muitos deles foram escritos para ser lidos dessa forma também.”

Sobre um romance de Michael Frayn comprado num sebo – “‘Se Frayn estiver prestes a entrar na pele de alguém, não é na de Evelyn Waugh, mas na de Gogol’, lê-se na sinopse promocional do livro (…).Pelo que posso entender, a citação é um aviso solene aos fãs do elegante texto de humor inglês de que esse elegante romance inglês de humor não vai ser de interesse deles mesmo. Foi uma tática bem ousada, certamente; os exemplares de uma libra nos levam a crer que ela nunca foi um sucesso.”

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Nick Hornby e o frenesi

Pode-se dizer qualquer coisa de Nick Hornby, menos que ele não saiba escrever com fluidez, inteligência e humor. Em seus romances isso nem sempre basta, talvez porque os achados pop que abundam em sua prosa não garantam sozinhos a densidade estética e psicológica que a ficção muitas vezes exige. Não que sejam maus romances, apenas acho que suas qualidades como escritor aparecem mais no formato de não-ficção. É nele que escreveu dois ótimos livros: Febre de bola (Rocco, 248 págs.), suas memórias de torcedor do Arsenal, e o agora lançado Frenesi polissilábico (Rocco, 264 págs.), coletânea de resenhas publicadas na revista americana The Believer.

Na verdade, são menos resenhas que conversas sobre livros – leves, sinceras, repletas da habitual mistura de descrições apaixonadas e auto-ironia, numa constante defesa dos prazeres da leitura descompromissada frente ao engessamento de categorias acadêmicas e ideológicas. E o que é mais importante em se tratando de análise literária: seja falando das obras em si, seja de temas em geral ignorados pela imprensa do meio – o tamanho das histórias, por exemplo, ou a forma como são apresentadas as edições –, os textos trazem a marca inconfundível de autores que pensam sozinhos, mesmo quando erram.