Duas descrições de cidades

por Michel Laub

1) Nick Tosches sobre Hong Kong em A última casa de ópio (Conrad, 93 págs.):

“Não havia noite nem dia: apenas a luz do neon, e a voluptuosa escuridão, a meia-noite acelerada e sem fim, a veradeira alma do lugar, que impregnava até a aurora resplandescente, quando o sol e o neon se tornavam, por um instante estático, a bruma elétrica que era o único batimento cardíaco do repouso – de pé, num balcão de bar ou mesa de jogo, ou deitado entre sedas luxuosas e hálitos delicadamente perfumados – que precedia o flamejante despertar de um dragão e de uma cidade que eram um só.”

2) Martin Amis em A informação (Companhia das Letras, 490 págs.):

“Percebeu, no momento em que saiu andando pelas suas ruas, que Nova York era a coisa mais violenta que os homens já haviam feito com qualquer extensão de terra. Mais violenta, a seu modo, que os efeitos produzidos pouco acima de Hiroshima, no ponto zero, no dia da bomba.”