A alma atormentada e a banana

por Michel Laub

Embora tenha mantido um certo padrão sonoro nos últimos e bem-sucedidos discos que gravou – Time out of mind, Love and theft, Modern times e o recém-lançado Together through life –, Bob Dylan ainda é identificado com a idéia da eterna mudança e, para quem acredita nisso em se tratando de show biz, como uma espécie de catalisador dos tormentos individuais da alma artística. O exato oposto dos Rolling Stones, outra das lendas aparentemente vivas dos anos 1960, que sempre estiveram aí apenas para se divertir – da mesma forma e dando uma banana para qualquer discussão que vincule sua trajetória a argumentos políticos, históricos ou comportamentais.

A dicotomia foi captada por Martin Scorsese em dois documentários disponíveis em DVD, No direction home e Shine a light. Em ambos ele poderia ter optado pela narrativa convencional da cinebiografia, mas preferiu uma forma mais apaixonada de homenagem: no primeiro caso, submergindo na mitologia de extração romântica que o gênio egocêntrico de Dylan sempre alimentou; no segundo, deixando os Stones fazerem aquilo que mais sabem, mais gostam e mais devem mesmo fazer – tocar.

Óbvio que No direction home é um filme mais rico. Mas Shine a Light, com exceção de algumas passagens complacentes, consegue recuperar a eletricidade de Mick Jagger e cia ao vivo, algo que havia sido enterrado por transmissões burocráticas de shows na TV ou por DVDs anteriores e hediondos. É um registro estridente, físico, onde os músicos estão sempre próximos da câmera e se vê Keith Richards cuspindo no microfone ou envolto na fumaça de cigarro. E onde em alguns números, especialmente Jumpin’ Jack flash, Shattered e os duetos com Buddy Guy e Jack White, dá para entender por que os Rolling Stones vêm conseguindo ser os Rolling Stones por tanto tempo.