Porcos d’água, cavalos armados, peixes que curam

por Michel Laub

Há muita coisa boa em Brasil, a história contada por quem viu (Mameluco, 652 páginas), com organização de Jorge Caldeira e equipe, uma coletânea de descrições em primeira pessoa que cobrem desde a chegada de Pedro Alvares Cabral – registrada na carta de Pero Vaz de Caminha – até eventos recentes como a queda de Collor, prenunciada pela entrevista célebre de seu irmão à Veja. Entre um e outro ponto, o suicídio de Getúlio Vargas (contado em sua carta de despedida), a estréia de Pelé (numa crônica de Nelson Rodrigues), um relato de Carlos Lacerda sobre um jantar com Jânio às vésperas de sua renúncia e textos como o do missionário Fernão Cardim (c.1540-1625), dirigido a leitores europeus que nunca tinham ouvido falar de animais como:

Capivara – “Desses porcos d’água há muito e são do tamanho dos porcos, mas diferem nas feições.”

Tatu – “Tem o focinho muito comprido, o corpo cheio de coisas parecidas com lâminas, com que fica armado (…). Essas lâminas são tão duras que nenhuma flecha as pode atravessar, se não pelas ilhargas. Furam de tal maneira, já aconteceu de 27 homens com enxadas não poderem cavar tanto quanto um cavava com o focinho (…). É animal para se ver, ao qual chamam de ‘cavalo armado’.”

Peixe-boi – “Nas feições, parece animal terrestre e principalmente boi: a cabeça é toda de boi, com couro, cabelos, orelhas, olhos e língua. (…) Na cabeça, sobre os olhos e junto aos miolos, tem duas pedras de bom tamanho, alvas, e pesadas, que são de muita estima e único remédio para dor de pedra (cálculo renal), porque feita em pó e bebida em vinho, ou água, faz a pedra ser expelida. Certa vez, tomando-a uma pessoa, depois de várias experiências, antes de uma hora expeliu uma pedra do tamanho de uma amêndoa e ficou sã, estando dantes para morrer.(…) São muito grandes e alguns pesam dez, e outros quinze quintais (cada quintal equivale a 60 kg). Já se matou peixe que cem homens não o puderam tirar fora d’água, e nela o desfizeram”.