‘O filho da mãe’, de Bernardo Carvalho

por Michel Laub

 

(publicado no guia de livros da Folha – ver também post de 11/3):

 

Integrante da coleção Amores expressos, cujos títulos sempre trazem uma história de amor vivida numa cidade estrangeira, a trama intrincada do novo romance de Bernardo Carvalho não é apenas romântica, embora também enfoque a relação entre um soldado e um ladrão, e nem se limita a São Petesburgo, onde se passam a maior parte das cenas. Mais amplamente que isso, e como é praxe neste autor singular na literatura brasileira, o que está em jogo em O filho da mãe é o indivíduo e suas identidades possíveis – nacionais, culturais, sexuais – no caos do mundo contemporâneo.

 

Se em romances como Nove noites e O sol se põe em São Paulo tais identidades eram postas à prova pela geografia e pelo meio, em O filho da mãe tudo parece ditado pela história – no caso, a tenebrosa história russa, marcada pelo que Joseph Conrad, citado num romance de Martin Amis sobre o Gulag, chamava de “freqüência do excepcional”. Uma herança de massacres, tragédias, pobreza e tirania que faz os personagens – bandidos, burocratas, mães à procura de filhos perdidos, militares envolvidos em guerras absurdas – chafurdarem num cotidiano de humilhação e desespero.

 

A par de defeitos de menor importância – algumas falas explicativas demais no começo, um ou outro trecho que exagera no psicologismo –, o livro é muito feliz na escolha de um registro em terceira pessoa, mas que mantém a linguagem menos tensionada de obras recentes de Carvalho. É a partir dela, com sua recusa ao cerebralismo objetivo, que emergem as emoções escondidas num tempo e num lugar onde “sempre haverá alguém pronto para reconhecer e atacar a vulnerabilidade”.