Duas considerações sobre preparo físico

por Michel Laub

 

Primeiro, a de Norman Mailer em A Luta (Companhia das Letras, 224 páginas), enquanto tenta acompanhar Muhammad Ali numa corrida de fim de tarde no Zaire:

 

“É preciso atingir o ponto em que as pernas e os pulmões funcionam em conjunto, em algum estado igualitário de esforço. Cada qual pode estar próximo ao esgotamento, mas, se umas não estiverem mais cansadas do que os outros, proporcionam um equivalente lancinante e laborioso para o incansável, a saber, que a sensação após um quilômetro não é mais abominável do que a que se tem no fim de quinhentos metros. O truque é atingir esse estado desagradável sem ter de proteger nem as pernas, nem os pulmões. Então, caso não haja morros que dissipem reservas minguadas, se não se perde o passo ou se é forçado a parar, se não se tropeça e não se fala, aquela toada progressiva e firme pode continuar, determinada, ofensiva às entranhas da meia-idade, mas virtuosa – a sensação de que se é o motor de um velho cargueiro.”

 

Depois, a ouvida por um personagem de Rubem Fonseca que assistia a um treino da seleção antes da copa do México, no conto Abril, no Rio, em 1970, de Feliz ano novo (Companhia das Letras, 176 páginas):

 

“Fiquei de olho no Gerson. Jogador de futebol vive cuspindo. Ele passou perto, deu um daqueles passes de trinta metros e cuspiu. Viu? Limpo, transparente, cristalino. Sabe o que é isso?, perguntou Braguinha. Fiquei na dúvida, será que ele estava esculhambando o Gerson? Está cheio de nego por aí que não topa o Gerson, que que eu ia dizer? Fiquei calado, balancei a cabeça e o Braguinha mesmo respondeu, preparo físico, menino, preparo físico, para cuspir assim o cara tem de estar tinindo. Vamos estraçalhar os gringos.”