Sobre influências literárias

por Michel Laub

 

Sempre dou um desconto para declarações de escritores sobre influências literárias. É muito difícil detectar ou admitir as relações obscuras, ou nem tanto, entre algo que você leu um dia e algo que aparece no seu texto anos, às vezes décadas depois. Além disso, ao menos se tratando de quem está preocupado em seguir um caminho próprio, existe um instinto que repudia e afasta vozes alheias assim que são percebidas, com o que elas deixam de ser importantes.

 

Melhor ficar, portanto, com um segundo tipo de influência – mais palpável e direta, menos problemática ou vergonhosa de ser reconhecida. É o caso das listadas por Raymond Carver no ensaio Fires, que está na coletânea Call if you need me (Vintage, 300 págs.): uma corrida de cavalos que deu origem a uma história, por exemplo, ou o sentimento de “responsabilidade inescapável” por ter tido dois filhos cedo e a partir de então precisar trabalhar e ter pouquíssimo tempo para a literatura – o que o fez se dedicar ao conto, gênero que não exige o ócio e a concentração contínua do romance.

 

Ao contrário de Flannery O’Connor, para quem “nada de muito importante acontece depois dos 20 anos”, Carver só consegue enxergar em seus livros ecos de acontecimentos da vida adulta, o que credita à “benção” da falta de memória. Mas claro que ele está enganado, e aqui entra a terceira espécie de influência na carreira de um escritor: aquela que o faz, em algum ponto de sua infância/adolescência, diante de opções tão numerosas e à primeira vista muito mais atraentes, passar a se dedicar com regularidade à leitura. Nada haveria sem esse passo inaugural, que parece corriqueiro depois de tanto tempo passado, mas que na verdade é o maior mistério deste mundo – o literário – capaz de transformar uma convenção inútil no centro da vida de tanta gente.

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