Radiohead em 4 itens (e 40 músicas)

por Michel Laub

Grunge – referência pouco lembrada do início da carreira, talvez porque o vocal melódico, auto-piedoso e inglês de Thom Yorke seja o oposto do registro cru, enérgico e americano de Kurt Cobain e seus antecessores e epígonos. Mas algo da estrutura musical das bandas de Seattle – a alternância entre leveza e peso, harmonia e distorção, melodia e gritos – está em faixas como The Bends, Stop whispering, Just, Bones e especialmente Creep e My iron long, cujos trechos barulhentos têm ecos do refrão de Heart shaped box, do Nirvana.

Arranjos – Tanto as guitarras expansivas – You, Prove yourself, I can’t, Electioneering, Anyone can play guitar – quanto as climáticas – Subterranean homesick alien, Let down, Knives out –, passando pelas que fazem um misto de ambas – Blow out, Planet telex, Bodysnatchers, Paranoid android. Tanto os baixos que guiam os andamentos quanto os que os pontuam de forma mais autônoma – Airbag, 15 Step. Tanto as baterias tradicionais quanto as quebradas e/ou programadas em sintetizadores – Idioteque, Reckoner, Videotape, Blackdrifts. No conjunto, e com o apoio de xilofones, violinos e das mais diferentes formas de teclados e efeitos de estúdio, a façanha de soar contemporâneo independentemente das modas que põem e tiram de cena outras das várias influências da banda – entre elas o jazz, a música eletrônica, a música erudita, a música ambiente.

Tristeza – Não a das letras, que frequentemente caem num lamento até certo ponto fácil contra a vida moderna e a cultura de massas, e sim a da música mesmo: da que se manifesta de forma eufórica, como que fascinada pela própria beleza melódica e desesperada em High and dry, Nice dream, Black star e Karma police, até a sublinhada e a um passo da caricatura – No surprises, Fake plastic trees, Scatterbrain, How to disappear completely –, mas ainda assim capaz de uma empatia que nunca cai na comodidade sentimental.

Experimentalismo – O que Nick Hornby, numa resenha célebre sobre Kid A, acreditava ser apenas uma resposta dissonante, fragmentada e anti-mercadológica às expectativas criadas por Ok computer, uma espécie de interregno charmoso anterior a uma possível volta legitimada ao hit parade, e que acabou se revelando a vocação primeira da banda – o destino para onde converge, como numa escala evolutiva, as passagens anteriores pelo rock e o pop mais reconhecíveis.  Nesse Radiohead novo e definitivo, que sempre demora um pouco para ser entendido e apreciado, há pérolas que não escondem a própria dificuldade – Everything in its right place, Pyramid song, Sit down, stand up, We suck young blood, Optimistic –, mas as obras-primas ainda guardam algo da comunicação direta da fase inicial: A punchup at a wedding, Morning bell (a primeira), 2+2=5, Weird fishes, Jigsaw falling into place.

Anúncios