Faulkner, Thomas Bernhard, García Márquez

por Michel Laub

 

A primeira tarefa de qualquer escritor, como se sabe, é convencer o leitor. Isso não significa fazê-lo acreditar na “verdade” do que está sendo contado, e sim permiti-lo embarcar no que Coleridge chamava de suspensão voluntária da descrença, conceito que se aplica tanto ao realismo ortodoxo quanto à menos linear das fantasias. O processo para chegar a tal estado não deixa de ser misterioso, como aquele que nos faz dizer se um ator é bom ou não. Mas há elementos que servem de pista para julgarmos se um texto cumpre a tarefa.  

 

De cara, dá para pensar em três: o tom, a linguagem e a coerência narrativa com o gênero escolhido. Curiosamente, são atributos que, ao serem usados para obter um efeito determinado, o do convencimento por meio da convicção, acabam juntando três autores do Século 20 de aparência muito diversa entre si.

 

O primeiro deles é García Márquez. No seu caso, era necessário fazer o leitor acreditar que crianças podem ser carregadas por formigas, ou que houve uma epidemia de esquecimento num pequeno povoado onde existem homens que são seguidos por borboletas amarelas. Para tanto, ele usou o método da especificidade, sobre o qual tem uma frase famosa: “Se você diz que há elefantes voando no céu, as pessoas não vão acreditar em você. Mas se disser que há quatrocentos e vinte e cinco elefantes no céu, as pessoas provavelmente acreditarão.”

 

O segundo autor é Thomas Bernhard, cuja tarefa não é bem convencer sobre fatos inusitados, e sim sobre uma verdade própria que é apenas do narrador. Quando essa verdade é repetida indefinidamente, numa espiral obsessiva que acrescenta nuances sutis de tom a frases simples como “não há nada como um bom copo d’água” ou “a fotografia é o maior desastre do Século 20”, o leitor é como que arrastado pelo caráter definitivo dessa fala, que não deixa nenhum espaço para dúvida. Não importa mais se o que está sendo dito é verossímil no mundo real: a forma como está sendo dito é que passa a ser uma espécie de realidade.

 

Se Bernhard e García Márquez usam a convicção para obter um resultado também cômico – não por acaso, os livros de ambos estão repletos de um típico humor de ênfase, de frases seríssimas ou xingamentos ditos por alguém o tempo todo se controlando para não rir –, o terceiro dos escritores aqui listados, William Faulkner, extrai daí um caráter trágico. É o que está nas entrelinhas da fala de personagens que tentam desesperadamente convencer o mundo de que estão certos: quanto mais eles se debatem para fugir de seu destino, o mesmo que negam em suas opiniões peremptórias sobre homens, mulheres, deus e o demônio, mais sabemos que não há outro desfecho possível para suas trajetórias. E é justamente a coerência dessa fala, também apresentada como única leitura possível do mundo, que torna romances como O som e a fúria tão densos e inesquecíveis.

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