Cronenberg, Amis e o terror russo

por Michel Laub

 

David Cronenberg costuma ver o corpo humano como primeira e última fonte de qualquer drama. É só pensar em A mosca, sobre um cientista que se transforma em inseto; Gêmeos, todo baseado num determinismo genético; ou Spider, que trata de um garoto manipulado pela própria loucura.

 

Senhores do crime, que saiu há pouco em DVD, não é muito diferente – e uma das melhores cenas do filme mostra como as tatuagens de Viggo Mortensen podem contar a história de sua vida. Mas há também um dado cultural no enredo, presente já na ironia do título original, Eastern promises. É uma referência a uma promessa feita a Naomi Watts por Seymon, russo dono de um restaurante em Londres, magnificamente interpretado por Armin Mueller-Stahl.

 

Para quem não viu o filme, basta dizer que a promessa logo será descumprida. Não chega a ser uma surpresa porque já havia um leve desconforto, que indica algo ruim prestes a acontecer, nas falas iniciais de Seymon. Fiquei pensando nos motivos disso, e a conclusão é meio óbvia: 1) porque o personagem é russo; 2) porque há toda uma tradição cinematográfica, com origem na Guerra Fria, em que personagens com sotaque do leste europeu são perigosos; 3) porque tudo o que o ocidente imagina sobre a Rússia hoje diz respeito a máfia e crime. Mas Cronenberg vai um pouco além.

 

Em Casa de encontros (Companhia das Letras, 238 págs.), como é característico em vários de seus livros, Martin Amis faz referência constante a uma espécie de mal essencial, inapelável, que se projeta sobre os personagens como uma sombra maior que seus pequenos horizontes. O que eram o nazismo, as bombas nucleares e o suicídio em A seta do tempo, Einstein’s monsters e Trem noturno, respectivamente, em Casa de encontros é o que ele chama de “a mão pesada russa”. O que, segundo uma frase de Conrad citada no romance, se deve a uma herança histórica marcada pela “freqüência do excepcional” – um pesadelo de guerras, massacres e tirania acentuado pelo fato de que “na escala mais ampla, destino é demografia, e a demografia é um monstro”.

 

De certa maneira, essa idéia está no centro de Senhores do crime. Como se personagens como os de Mortensen e Mueller-Stahl fossem sobreviventes de um horror que não pode ser sequer imaginado, a fonte de todo o potencial maligno de suas ações. Tamanho poder de sugestão, que nunca foi uma especialidade de Cronenberg, curiosamente o aproxima do cineasta contemporâneo que, em outro universo e com outros objetivos, mais sabe manejar o recurso: David Lynch. E faz do filme, visto por parte da crítica como convencional, o melhor do diretor canadense em muitos anos.