A alegria em duas versões

por Michel Laub

 

Primeiro, a descrita por J.M.Coetzee em A vida dos animais (Companhia das Letras, 144 págs.): 

 

“Como é ser um morcego? Nagel sugere que, antes de podermos responder a essa pergunta, precisamos ser capazes de experimentar a vida do morcego por meio das modalidades sensoriais de um morcego. Mas ele está errado; ou pelo menos está nos colocando na trilha errada. Ser um morcego vivo é estar cheio de ser. Ser plenamente morcego é igual a ser plenamente humano, o que quer dizer também estar cheio de ser. Ser-morcego no primeiro caso, ser-humano no segundo, talvez, mas essas considerações são secundárias. Estar cheio de ser é viver como corpo-alma. Nosso nome para a experiência de ser pleno é alegria”.

 

Depois, a que Guimarães Rosa descobre no meio do jardim numa das novelas de Corpo de baile (Nova Fronteira, 266 págs.):

 

“Ele apreciava o cheiro da terra, das folhas, mas o mais lindo era o das frutinhas vermelhas escondidas por entre as folhas – cheiro pingado, respingado, risonho, cheiro de alegriazinha.”