A vida em 84 mexilhões

por Michel Laub

 

“Ele sempre abafa a tristeza destes temas – a perda de tempo, a vida passando, o jeito como as velhas maneiras desaparecem – e deixa que o leitor sinta apenas o prazer que vem de suas descobertas muito pessoais”. O trecho fala do jornalista e escritor americano Joseph Mitchell, é uma citação da crítica a uma de suas maravilhosas coletâneas de reportagens e está no Livro das Vidas, seleção de obituários do New York Times (Companhia das Letras, 312 págs.).

 

Troque “descobertas pessoais” por uma lista de memórias idiossincráticas, postas no mesmo nível dos feitos grandiosos do morto, tudo acenando para um sentido de coerência e integridade que a vida nunca conseguirá ter, e aí está a essência da arte do obituário. Os da Economist às vezes fazem isso com uma ironia tão aguda quanto discreta, na melhor tradição inglesa, e têm como objeto nomes conhecidos da política, das ciências, dos esportes, das artes. Já os do NYT falam de gente comum, com exceções como o próprio Mitchell. Também são menos distanciados, apesar da forma elegante com falsa aparência de neutralidade, e isso talvez explique seu sucesso num veículo lido por todas as classes. O humor aqui, quando há, é doce e a favor do personagem:

 

“[Mitchell] também era o poeta da zona portuária, da divulgação da grandeza de Nova York como porto marítimo, do mercado de peixes de Fulton, dos catadores de mariscos de Long Island e dos catadores de ostras em Staten Island: gente que vendia e comia frutos do mar, e que falava disso incessantemente (…). Num domingo de agosto de 1937, ganhou o terceiro lugar num concurso de comer mariscos em Block Island, depois de engolir 84 mexilhões. Segundo ele, ‘foi uma das poucas realizações dignas da minha vida’.”