Filmes que enganam o público, mas ainda assim são bons

por Michel Laub

 

Por enganar entenda-se aquele lamentável expediente de esclarecer, lá pelo último quarto da história, que tudo o que você viu até aqui é 1) um sonho; 2) fruto da imaginação de um psicopata ou esquizofrênico; 3) algum tipo de conspiração cognitiva que, metalingüisticamente falando, é uma referência ao dom de iludir intrínseco à sétima arte, sabe assim?

 

Clube da Luta – Para quem sempre teve vontade de mostrar as gengivas ensangüentadas para um colega de trabalho durante uma apresentação de Power Point. O filme é presa fácil para qualquer crítico que queira subir na vida acusando-o de fascismo – afinal, ele prega que a saída contra a opressão da sociedade moderna é a porrada –, mas numa reprise de meio de semana, num horário particularmente desleixado do Telecine, é uma alegria contar com o cansaço irônico das falas de Edward Norton e o frenesi pop da direção de David Fincher.

 

Uma mente brilhante – Porque, pelo menos à distância, poucas coisas podem ser tão divertidas quanto a mania, a obsessão e a paranóia. A última peça que vi de Zé Celso, por exemplo, valia só pelas menções a Silvio Santos e ao governador José Serra em meio a uma trama passada na Araraquara dos anos 1950. Mais ou menos o equivalente ao colega de quarto imaginário, ao agente da CIA imaginário e, está na cara, à esposa e ao Nobel imaginários do matemático Russell Crowe.

 

Vanilla Sky – Ok, este não chega a ser propriamente bom, mas é simpático assistir às tentativas de Cameron Crowe – uma espécie de Nick Hornby mais sentimental – de explicar o mundo a partir das letras de suas canções preferidas, das capas de seus discos de estimação ou de diálogos transportados de alguma fusão tardia entre Breakfast Club e Hal Hartley. E com um detalhe: em alguns momentos, especialmente quando entram em cena Cameron Diaz e o homem da Internet, tudo de repente se transforma num filme de David Lynch, em que somos assaltados pela percepção de que algo muito ruim está muito próximo de acontecer. De fato acontece: Tom Cruise não morre e nem chega a sofrer muito dentro daquela máscara branca.