Clint Eastwood e o maniqueísmo

por Michel Laub

 

Jorge Coli escreveu que A troca, de Clint Eastwood, caracteriza-se por uma “convicção ética que exclui o maniqueísmo”. Entre outras razões, isso ocorreria porque o diretor filma de maneira crítica policiais executando suspeitos – o que confronta a mitologia do justiceiro típica do início de sua carreira. Também porque o personagem psicopata, encarnação possível do mal absoluto, ao mesmo tempo mostra “dimensão humana” na cena em que, dando vazão à sua “consciência infantil”, canta Noite Feliz antes de ir para a forca.

 

Embora em geral concorde com Coli quando o assunto é cinema americano, desta vez tive uma impressão oposta. Para começar, é só fazer um teste: qual o filme de Hollywood nos últimos vinte anos – ou até trinta – que não mostrou uma delegacia como antro de corrupção e abuso de autoridade, normalmente incentivada pelos chefes, pelo comandante do departamento e pelo prefeito, todos adversários de um detetive honesto (ou de uma mãe desesperada, ou de um pastor que prega num programa de rádio)? E qual filme sobre psicopatas não chamou atenção para algum aspecto pitoresco, divertido, lógico ou comovente na sua personalidade ou conduta?

 

Dá para dizer, inclusive, que não ser maniqueísta, ou ao menos não aparentar sê-lo, virou um clichê hollywoodiano como qualquer outro. De minha parte, não acho que a ambigüidade seja necessariamente mais rica ou moralmente superior à convicção. Mas em A troca parece ser isso o que falta: a par da indiscutível qualidade técnica da direção, Clint Eastwood se limita a reforçar os sentimentos óbvios que uma história brutal como essa desperta no espectador – o choque, a raiva, a piedade. Tudo para dar em troca uma idéia até certo ponto banal, que perpassa toda a sua obra recente: a de que a vida civilizada não exclui o horror, tenha ele origem no acaso, tenha em atos individuais ou coletivos.

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