Ainda Clint Eastwood

por Michel Laub

 

Sendo mais específico sobre o assunto do post anterior:

 

1) a protagonista vivida por Angelina Jolie encarna um tema essencialmente americano, o do voluntarismo individual diante do sistema burocrático e corrupto. Na trajetória dessa família de heróis, paralelamente a momentos eventuais de dúvida e fraqueza – que nem estão em A troca, diga-se –, sabemos o tempo todo para quem devemos torcer. Nada contra esse gênero de filmes, só não consigo ver neles as matizes próprias de uma abordagem “não maniqueísta”.

 

2) a idéia do horror está, por exemplo, em Sobre meninos e lobos e no desfecho de Menina de ouro. Nenhum dos dois filmes acrescenta algo muito original ao que já sabemos sobre o tema, o que não significa uma condenação antecipada a ambos. Importa é o que Clint Eastwood dá em troca: no primeiro caso, apesar de toda a aparência de estudo moral sobre a culpa, apenas a reiteração meio sádica de um sofrimento que não queremos e não precisamos ver; no segundo, pelo menos até o início das lutas de Hilary Swank, uma esplêndida narrativa sobre o mundo do boxe – suas regras, seus personagens, sua mitologia.

 

3) Como em Morgan Freeman, Gene Hackman, Tommy Lee Jones e Anthony Hopkins, o melhor personagem de Clint Eastwood é o cético entrando na velhice, cujos atos trazem aquele misto de amargor e desprendimento de quem já viu um pouco de tudo, de quem já sofreu e fez sofrer o bastante. Ainda falando de matizes, é o tom resignado de tipos assim que consegue botar alguma sabedoria, algum charme, algum humor para além da culpa e da dor em histórias como Os imperdoáveis e Menina de ouro. Em A troca, diferentemente, fica-se apenas com o que o horror tem de inapelável.

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