Raskólnikov e Francis Bacon

por Michel Laub

 

“O homem extraordinário”, diz o personagem Raskólnikov em Crime e Castigo, de Dostoiévski, “tem o direito de permitir à sua consciência passar por cima de diferentes obstáculos, e unicamente no caso em que a execução de sua idéia (às vezes salvadora, talvez, para toda a humanidade) o exija”.

 

A passagem é célebre por reafirmar a crença de que fins significativos pairam acima das convenções que definem a moralidade dos meios. Se grandes vultos como Napoleão eliminaram exércitos inteiros, continua Raskolnikóv, é natural que também ele, outro “homem extraordinário”, precisasse sacrificar uma vida desprezível – no caso, a de uma senhora avarenta para quem devia uma quantia impagável – para levar adiante seus objetivos.

 

Embora o argumento acabe sendo desmentido pelo andamento da trama, Dostoiévski o expõe com tamanho poder sugestivo que quase faz o leitor concordar com ele. Esse é um dos motivos por que o romance é tão perturbador, mas não o único: vez que outra acontece de percebermos como tal idéia é comum em homens convencidos, justificadamente ou não, da própria grandeza.

 

Para quem duvida, segue trecho da fala do pintor Francis Bacon no livro Entrevistas com Francis Bacon, de David Sylvester (Cosacnaify, 208 págs.). Claro que há nuances na passagem – ele não está justificando um crime ou algo do gênero – , mas troque vitórias de Napoleão por grande arte, exércitos dizimados por sofrimento coletivo, e a essência não é muito diversa:

 

“Você poderá dizer que a vida é completamente artificial, mas a meu ver aquilo que se costuma chamar de justiça social faz com que ela se torne ainda muitíssimo mais artificial. (…) Eu não fico abatido com o sofrimento das pessoas, porque acho que o sofrimento delas e a desigualdade entre elas são o que criou a grande arte, e não o igualitarismo. (…) Quem se importa com um povo feliz ou se lembra dele? Passado alguns séculos, tudo que se pensa é no que um povo deixou. É possível, imagino que se forme uma sociedade tão perfeita que seja lembrada pela perfeição de sua igualdade. Mas ela ainda não surgiu, e até agora, tanto quanto se sabe, quando lembramos de um povo é por aquilo que ele criou.”